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BOAVENTURA CARDOSO: UM FICCIONISTA ANGOLANO QUE EXPLORA TEMAS LIGADOS À RELIGIÃO Boaventura Cardoso pertence geração literária de 70. Nasceu em Luanda a 26 de Julho de 1944, passou parte da sua infância na cidade de Malanje. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. É licenciado em Ciências Sociais. Foi Secretário Estado da Cultura Ministro da Informação. Presentemente desempenha o de Embaixador de Angola em Itália, depois de ter passado por Roma. O início da sua carreira literária data de 1967, com a publicação de vários contos e poemas em jornais luandenses. É um ficcionista angolano com uma obra feita de seis livros, sendo três de contos e três romances, nomeadamente: Dizanga dia Muenhu, O Fogo da Fala, A Morte do Velho, Kipacaça (conto) e O Signo do Fogo, Maio, Mês de Maria; Mãe, Materno Mar ( romance). O meu breve exercício de leitura incidirá sobre os seus dois últimos os romances têm comum facto de os títulos registarem a recorrência M, além do facto se narrarem histórias em que os personagens centrais revelam uma capacidade de interpretar os sinais do mundo invisível, dos espíritos outros sobrenaturais. No plano simbólico, tal torna-se possível com o recurso a elementos cosmogónicos como o fogo, intermediários hierofânicos, como a cabra Tulumba em Maio, Mês de Maria e cobras, águias, associados a outros elementos da natureza em Mãe, Materno Mar. As festas apoteóticas constituem igualmente um aspecto comum. São momentos que ocorrem no desfecho das histórias. Maio, Mês de Maria é a encenação da crise vivida, no imediato pós-independência, pelos estratos sociais constituídos por angolanos que constituíam aquilo a que alguns sociólogos designariam por pequena burguesia autóctone. João Segunda é o protagonista. Ao sentir-se vítima de um sistema social, económico que se implanta e lhe vem quebrar as expectativas de prosperidade e ascenção para os filhos, João Segunda começa por abandonar Dala Kaxibo, a localidade onde vivia. Fixa-se em Luanda. Começa então a testemunhar a sua própria decadência. A morte da esposa e as peripécias da privação material generalizada e dos valores que lhe são associados, traduzem-se na sua personalidade em patologias de foro psiquiátrico. Na sua vida privada, tal patologia começa por exprimir-se através de uma relação de cariz sagrado que estabelece com Tulumba, uma cabra domesticada. Boaventura Cardoso retoma, neste seu novo romance, o tema do sagrado e da religião de um modo geral. Mãe, Materno Mar, uma narrativa que não linear na sua estrutura superficial, comporta a história de uma viagem de comboio feita em 15 anos. Tal é a duração do tempo da história. Dividido em três partes, nomeadamente A Terra O Fogo e A Água é um texto que apresenta pelo menos duas histórias secundárias enxertadas na narrativa primária. A velocidade que o narrador imprime dá uma configuração formal dispersiva e caótica a essas histórias. Além de apresentarem características de conto, pela incidência que se faz sobre a obsessão das personagens, no caso de Manecas, e o passado pessoal, no caso Homem de Fato Preto. Estas duas personagens estão marcadas por obsessões que representam casos clínicos de natureza psicanalítica. Mas o seu estudo implicaria o exercício de um discurso psicanalítico não ortodoxo que teria de incorporar elementos da ciência Kimbanda, já que as obsessões de Manecas decorrem do de ser kianda, menino-das-águas ou menino-feminino, de acordo com a cosmogonia Kimbundu. A alusão à velocidade tem alguma pertinência, pois o comboio e as contigências que afectam a sua função, enquanto meio de transporte, constituem os factores que desencadeam os comportamentos mais relevantes das personagens da história. Como símbolo de movimento, encurtando o tempo e o espaço, o comboio não desempenha exclusivamente a função de meio de transporte. Pelo contrário, transforma-se em espaço habitacional e simboliza, por outro lado, o espaço da desordem e do caos. É o caos que afecta o movimento e a velocidade do comboio. Além do comboio, há ainda o simbolismo da Terra, da Água e do Fogo. São sub-títulos das partes que constituem a ossatura do livro. E com estas denominações simbólicas o autor pretende dar relevância ao segmento da história e às personagens que nelas se destacam. Eis o que, no meu entender, significam: A Terra, a vida e a morte; O Fogo, a vida sexual, o erotismo e a procriação; A Água, o mundo do sagrado e a religiosidade. O elenco de personagens é extenso. Mas pode em síntese ser assim constituído: a família da noiva em que se destaca seu pai; Ti Lucas, o ceguinho; Manecas, para quem «aquela viagem era só rio correndo as correntes águas. O tempo era constante fluidez. E das margens do rio não vinham notícias nenhumas»; as treze raparigas de óculos escuros; o Homem de fato preto; disc Jockey; quatro pastores e um profeta. Apercebemo-nos da existência destas personagens no momento em que o comboio retoma a viagem, após a paragem de três anos em Cacuso. Alguns deles tinham constituído família ou tinham filhos. Em meu entender a personagem central deste romance é Ti Lucas, o ceguinho. E porquê? É ele que decifra os enigmas com que se vão confrontando as personagens, quer individualmente, quer de modo colectivo. Interpreta o destino das pessoas. E está presente em toda a narrativa. Mas o ceguinho tem uma biografia. Nascido em 1917, era o passageiro que mais conhecimento detinha sobre a história da linha férrea por que andava o comboio e do espaço cultural circundante. Aos doze anos tinha sido soldador mecânico. Tinha sido preso em 1961, mas recusou falar dos poderes que tinha para ver fogo debaixo das cinzas. Se o leitor pode ter sido atraído pelas façanhas do Profeta, certamente não terá ignorado o facto de o próprio Profeta reconhecer os poderes de Ti Lucas, pois ele via muitas águas onde as pessoas só viam terra. As águas de Ti Lucas, para usar a linguagem do narrador, eram mais poderosas que as águas do Profeta. Por exemplo: a) Ti Lucas tinha o dom de pressentir os bons e os maus espíritos, o mau carácter, o coração bondoso, os bem-vindos ares, o honesto, o crápula e o vilão, que só de olhar sabia qual passageiro era portador de amuletos ou de algo para fazer mal a alguém(...); b) Por ser uma figura de consenso, foi ele que popiciou um momento de paz com suas sugestões sobre os funerais; sobre a chuva; sobre as verdadeiras causas da avaria do comboio, ao ter percebido que havia uma gruta onde estavam mikuyius, ndokis, basimbis, mintadis, e mikissis, os espíritos e as mágicas estatuetas. c) Pressagiou o fim da noiva que teria um casamento estranho. d) Para o ceguinho, a inundação de Luinha significava que "a água está entre a terra e o fogo. Ela tanto pode significar nascimento como morte. Ela é muito traiçoeira e oportunista porque não tem forma própria. Como não tem casa própria, anda por aí a vaguear, vaguear". O que Ti Lucas queria dizer é que aquela "longa viagem tinha também a companhia de certas almas de outro mundo e eram como se fossem passageiros que tinham embarcado em Malange, que seguiam todos os passos de os vivos viandantes". O FOGO, é o título da segunda parte do livro. Corre nela o segmento da história em que a noiva, tendo ficado sem o noivo devido ao atraso do comboio e porque não se realizou a cerimónia, desesperada embarca sózinha com destino a Luanda, deixando os parentes em Ndalatando. Entretanto à noiva, que frequentava os cultos da Igreja do Bom Pastor, viria asuceder um caso estranho. Tinha visto uma cobra com a língua de fora, agitando a cabeça. No instante, uma águia de crista em coroa desceu das alturas e despedaçou a serpente. Quando a águia levanta voo os restos da serpente se trransformam em fogo. O fogo extinguiu-se quando águia desapareceu do céu. Mas o fogo voltara para anunciar o seu triunfo. Tal como previra o Ti Lucas, a noiva não continuaria a viagem com destino a Luanda, pois dar-se-ia um estranho casamento. E assim aconteceu, quando numa certa noite os viajantes viram uma luz que era uma chama com formato de falo. Volterara três vezes sobre a fogueira e se extinguiu imediatamente. O narrador diz: "As moças dos óculos escuros tinham excitado o Deus do Fogo, Nzambi ia Tubia. Os falados fogos." Da discussão sobre o enigma da faloforia, destaca-se Ti Lucas que, no seu entender, a estranha luz em forma de falo simbolizava que a noiva, não fazendo já parte do mundo dos vivos, se casara com o Deus do Fogo.. "É um estranho casamento, mas foi o que realmente aconteceu". Se as moças dos óculos escuros são o símbolo da orgia sexual, a impureza, já a noiva pela sua pureza acabou por encarnar o desejo do Deus do Fogo. A primeira manifestação do caos no plano religioso foi a morte de quatro pessoas. E cada um dos mortos pertencia a uma Igreja, nomeadamente à Igreja do Bom Pastor, Igreja de Jesus Cristo Negro, Igreja do Profeta Simon Ntangu António ( originária de uma região fronteiriça), Igreja de Jesus Cristo Salvador de Angola. No decurso da narrativa destaca-se o Profeta Simon Ntangu António. Quem era o Profeta Simon Ntangu António? A sua biografia é apresentada na terceira parte e nela se salienta o momento em que recebe o bastão da Senhora das Boas Águas. O Profeta tinha poderes especiais, "fazia os milagres, travar a chuva, desviar o curso das águas de um qualquer rio, aplanar montanhas, curar doenças, reabilitar diminuídos físicos, tornar fecundos ventres estéreis, seduzir mulheres e homens, fazer desaperecer processos judiciais, anular julgamentos, um sem fim de prodígios". Na terceira parte, A ÁGUA, o Profeta Simon Ntangu António começou a evidenciar-se quando, com os poderes do seu bastão, pôs em marcha o comboio, quase submerso nas águas do rio Luinha. A linha férrea que se encontrava intransitável foi sendo obstruída à medida que o comboio seguia marcha. Decorrido esse episódio revelador, surgiria uma cobra semelhante a uma outra que fora vista quando o Ti Lucas acompanhou o Profeta a um adivinho por ocasião do primeiro desaparecimento do seu bastão. A fama do Profeta chegara a Luanda. Multidões estavam à sua espera para verem suas angústias e aflições resolvidas. Viera até uma individualidade estrangeira com o objectivo de contactar o profeta. O contacto pretendido mais parecia traduzir o aprofundamento de um negócio que ambos tinham celebrado através da Internet, meio de comunicação que o Profeta começara a usar no Palácio da Beira Alta, onde fora acolhido pelas autoridades locais. Mas quando o comboio apita na estação do Bungo em Luanda, o Profeta perde o bastão de poderes especiais. E não pode responder às solicitações e expectativas da multidão ávida e que preparava a apoteose ao longo de toda a avenida marginal. Embora o pretexto para a festa da marginal não se tivesse verificado, ela prossegue transformada em profanação e sacrilégio, quando se deseja morte ao Profeta. Quem não é afectado por falência é Ti Lucas. Ele é detentor de um saber que, fazendo apelo à tradição e ao passado, parece menos vulnerável. É a expressão do sagrado, na medida em que o repositório desse saber lhe merece confiança e respeito. A história deste romance introduz na literatura angolana um novo tema ou, dito por outras palavras, arrasta consigo um novo modo de abordar o tema do tempo no imaginário angolano articulado ao sagrado e à religião, englobando a teologia. É uma reflexão realizada no plano da ficção literária que se inscreve perfeitamente no debate flosófico actual sobre a falência do discurso hegemónico do pensamento da modernidade, de um lado. Noutro lado, situa-se a dinâmica das chamadas sociedades da tradição em que a vida dos homens não é exclusivamente irreversível, os ritos e as cerimónias servem para completar o curso regular das coisas na vida dos homens. No contexto das práticas filosóficas africanas pode dizer-se que Boaventura Cardoso engrossa a lista daqueles escritores que dão forma à tendência que introduz o elemento narrativo. Nisto reside a valorização do que se tem chamado Filosofia da Sabedoria ( Sage Philosophy), através de Ti Lucas, personagem que representa a figura do sábio ( sage). Ti Lucas é sábio do ponto de vista filosófico, na medida em que corresponde de modo consistente às interrogações sobre a sociedade e o mundo invisível que a circunda. |
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ARNALDO SANTOS, O FICCIONISTA QUE IMORTALIZA O TOPÓNIMO KINAXIXI Arnaldo Santos é natural de Luanda onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50 integrou o chamado grupo da Cultura. Na esquematização histórico-literária angolana diz-se que pertence à Geração de 50. Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. Membro fundador da UEA, é poeta e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe (contos, 1965); Tempo do Munhungo (crónicas, 1968); Poemas no Tempo (1977); Prosas (1977); Kinaxixe e Outras Prosas; Na Mbanza do Miranda ( conto, 1985 ); Cesto de Katandu e outros contos ( conto, 1986 ); Nova Memória da Terra e dos Homens ( poesia, 1987) A Boneca de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha das Margens é o seu último livro( romance,1999). Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ele consagra, conferindo-lhe um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade publicou a sua primeira colectânea de contos Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70. O autor de que estamos a falar, situa-se num nível singular de tratamento da linguagem. É um preciosista na depuração do texto narrativo curto e de todos os seus recursos e elementos. Daí que a sua ficção narrativa não tenha conhecido até à década de 90, variações para além do conto (Kinaxixi), crónica (Tempo do Munhungo) e novela (A Boneca de Quilengues). Embora o seu espaço físico e social de eleição seja o Kinaxixi, em Luanda, em A Boneca de Quilengues, desloca essa minúcia para Benguela, realizando pela primeira vez a introdução de termos e vocábulos em língua Umbundu. Chamo, entretanto, a atenção do leitor para A Casa Velha das Margens, o romance há muito esperado deste autor. Foi em 1967 que Mário António, escrevendo sobre a obra de Arnaldo Santos, num texto publicado no Boletim da Câmara Municipal de Luanda, indagava: "Para quando, Arnaldo o teu romance?". Mas o ficcionista do Kinaxixi pauta a sua estratégia criativa por uma perspectiva gradualista,pois antes deste livro, escreveu A Boneca de Quilengues, uma história que anunciava já essa obra de fôlego. A Casa Velha das Margens apresenta um peso específico particular, no contexto da ficção narrativa angolana. Não sendo rigorosamente um romance histórico, nele os elementos históricos constituem uma ossatura deliberadamente construída para situar os factos e as personagens. Mas entre as personagens abundam aquelas que têm alguma importância no conjunto da história social e cultural de Angola no século XIX. É, por conseguinte, visível a pretensão de conferir alguma espessura ao quadro histórico, ao inserir personagens históricas. São elas: o rei Ndunduma do Bié; jornalistas, escritores e tribunos da imprensa do século XIX como José de Fontes Pereira, Joaquim Dias Cordeiro da Matta, João Ignacio de Pinho, Mamede Sant'Ana e Palma. Todavia, tais referências estão feridas de algumas imprecisões que vêm defraudar as expectativas de um leitor angolano. Como compreender por exemplo que o narrador confunda o rei Ndunduma com o Ndunduma we Lépi? Ou ainda o facto de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, o bardo de Cabiri, ser investido nas funções de chefe do concelho (p.11), da divisão de Calumbo(p.16)? No plano da técnica compositiva, Arnaldo Santos privilegia a narração, na medida em que a descrição, entendida como suspensão do fluir da história para se realizarem retratos de personagens e detalhes do cenário, aparece apenas naqueles momentos em que a personagem ou o objecto são apresentados imediatamente antes de um acontecer.Tal se explica igualmente pelo facto de a estrutura do romance não ser linear. A rarefação de diálogos e a dispersão dos núcleos dramáticos ou da sua concentração alternada, comprovam a tendência para o recurso à narração. E a escassez de diálogos, dá lugar ao monólogo interior indirecto que consiste em comentários do narrador à escuta dos pensamentos das personagens. Ora, exactamente por isso, e porque a criatura narradora de Arnaldo Santos, tem a propensão para estar sempre ao corrente do que vai pelos arcanos psicológicos das personagens, a descrição em A Casa Velha das Margens é um expediente veicular de transições, através do qual se cobre a escassa produção de diálogos. Estes aparecem sempre sob forma de descrições e alusões a ideias e pensamentos da personagem. É a isto a que designamos por monólogo interior indirecto. Quando Emídio Mendonça, filho do português António Mendonça (Ngana Makanda) e de Kissama, uma mãe autóctone, natural da margem norte do rio Kwanza, «de regresso do Reino» atraca em Luanda no ano de 1889, apercebe-se imediatamente dos sintomas que o levariam a produzir interrogações sobre a história pessoal e o passado da sua família. Os contactos com notícias do passado começam por realizar-se em Luanda, frequentando o círculo de amigos e compatriotas de seu pai. Mas os valores que predominam neste círculo de quingundos[1], são, entre outros, a avareza, a cobiça, a inveja, a luxúria.«(…) começara a ter consciência que, no futuro, entre ele e os outros estariam sempre os jindeles dos seus pais, espíritos perturbadores a espiarem-lhe cada gesto, escutando as suas palavras, perscrutando-lhe os sentimentos. Não que ele acreditasse que os jingangas lhes trouxessem a fala nos xinguilamentos.»(p.132) Não se sentindo seduzido pelo ambiente que se vive em Luanda e muito menos por aqueles valores, mantem o propósito de, perante a sua condição de órfão de pai e mãe, resistir à tentação de abandonar os ideais que lhe tinham sido inculcados na infância e que estavam irremediavelmente associados ao território da casa onde nascera, num espaço físico e social dominado pelo rio Lucala. A mais violenta de todas as peripécias por que passa Emídio Mendonça, é a primeira, a tentativa de homicídio de que é vítima na localidade de Calumbo, perpetrada por um indivíduo chamado Canvula. Tratava-se ainda de uma violência manifestada por um certo grau de agressividade no plano físico-corporal. Mas tal não esgota as experiências violentas que configuram o processo de provações por que vai passando. Ao chegar à terra natal, Emídio Mendonça confronta-se com o perigo iminente de uma violência que se situa no plano psicológico ou espiritual: era o desaparecimento da sua família e da casa onde crescera, a Casa Velha na fazenda do Hombo onde se escondiam mistérios que interessavam agora decifrar. A salvação contra esse perigo é a memória personificada pelo Mais-Velho Pascoal e o ambaquista Vitorino. O desaparecimento físico da mãe, a morte enigmática do pai, a violência exercida pelo degredado Santos Vaz sobre sua irmã Isabel, foram sendo explicadas pelo Mais-Velho Pascoal com referências às respectivas causas. A todos esses factos se associavam circunstâncias trágicas. No que diz respeiro à mãe "agora que não lhe encontrara nos lugares que a memória guardara da Casa Velha, não era apenas o seu afastamento, mas a própria ausência materializada, a perda da esperança de lhe encontrar"(p.131) Quanto à morte do pai, perante a interpelação de Emídio que admitia a probabilidade de doença, atalhara: (…) a doença nunca vem sozinha(…) Musunga kota, umbanda ndenge.(105) A fatalidade tinha sido ditada contra António Mendonça, pai de Emídio, a partir da data em que decidira ser depositário das mucandas sobre conflitos e reivindicações que eclodiam na região de Massangano, Dondo, Caculo e arredores no século XIX, mas remontando aos tempos da ocupação holandesa. Chegou em caçoada a ser chamado por compatriotas seus, "pai dos pretos". Isto testemunhava-o o Mais-Velho Pascoal. Datava ainda dessa época a sua decisão de indagar os "costumes ancestrais dos quissamas e dos seus ódios e conflitos contra os colonos"(p.119). Perante as revelações do Mais-Velho Pascoal, a Emídio começavam a interessar essas cartas dos amabaquistas depositadas por seu pai num «misterioso livro encadernado de couro", a "carteira das mucandas ambaquistas» (p.120). Havia cinco tipos de cartas ambaquistas[2]: as mucanda ua jindunda, que eram mucandas das queixas; as mucandas ua kuhúnda, mucandas de formar juízos; mucandas ua kusenga que reunia "os casos do abandono dos maridos e restituição de alembamento"; as mucandas ua mixangu ; as mucandas ia rihamba que imitavam o estilo "dos antigos pregadores jesuítas, empoladas de ditames da Bíblia e das leis, ou inspiradas na vida"(p.123). A leitura destas cartas eram feitas na Casa Velha onde nascera Emídio, em sessões públicas a que assistiam os libertos, pois "a fama dessas sessões de leitura, que tinham virado tribunais de milongas, já se estendera, e era demasiado tarde"(p.124). Para Emídio Mendonça, o incêndio que devorara a Casa Velha começava a tomar forma e a ser associada à morte do pai. Mas o incêndio que visava a redução das mucandas dos ambaquistas a cinzas e a liquidação de António Mendonça, o Ngana Makanda, era o que pretendiam todos os colonos que nisto viam a única a forma de silenciar os incómodos das antigas reivindicações autóctones contidas nas mucandas. Quando no Dondo alguém confirmava a conveniência dos incêndios dizendo que eles eram "necessários para fastar a bicharada malsã”(…) (p.126) e acrescentando que o "fogo também cauteriza e purifica…", compreendeu finalmente o terreno ardiloso que pisava. Emídio Mendonça concluía que era apenas um "órfão pardo das Margens " com todo o conjunto de consequências e implicações. Sobre o drama de ser "órfão pardo" conheciam-se muitas anedotas. Emídio Mendonça ouvira contar uma delas, por ocasião da sua passagem por Luanda. Dizia-se que " era uma sorte mal-fadada essa a dos pardos órfãos que inevitavelmente atraía quilombelombes, quingundos, e outras aves abutres, disfarçados de curadores de órfãos, tutores dos conselhos de família,credores, mucunjis das cerimónias de tâmbi(…)"(p.126-127). O desfecho de A Casa Velha das Margens, que é no fundo a biografia de Emídio Mendonça com digressões pela História dos lugares e pinceladas de anedotas do meio social de localidades como e Dondo e respectivo interior, decorre em Luanda no bairro do Kinaxixi como um prolongamento da interpretação das mucandas dos ambaquistas. A Carta de Kijinganu trazida das margens do rio Lucala para a Casa Azul do Kinaxixi, onde se fixara, fugindo a fúria dos novos colonos que ocupavam as Margens, esconde os mesmos mistérios que os exercícios de interpretação realizados por seu pai não tinham alcançado. Com efeito, a Carta de Kijinganu e os efeitos da sua semântica, o poeta Kuxixima kia Kuxixima, Isabel, irmã de Emídio, são personagens que povoam o final do romance e perturbam Emídio Mendonça. Todas elas têm em comum espíritos, visões, vigílias e prodigiosas ocorrências associadas, de uma ou de outra maneira, a reivindicações e heranças da terra. A subjacente cosmovisão do autor assenta no ponto de vista do narrador. E concretiza-se numa reapropriação da herança, da História do lugar, da terra e sua interpretação. A Emídio Mendonça impunha-se a necessidade de enterrar os espíritos dos antepassados. O que sua mãe não fizera.Tal fundamenta a deambulação destes espíritos num lugar como o Kinaxixi também povoado por kiandas. Só o regresso e homenagem aos quinguris de que falava Kissama, sua mãe, poderia salvar Emídio Mendonça de uma catástrofe existencial. Por isso, disse a Dino, seu filho:" Não posso esperar mais aqui em Luanda que um dia me venham agarrar…(…) Vou nas Margens, nos caminhos de Guengue O Velho Muhongo vai explicar e adivinhar todos os casos que se passaram…"(p.354) Arnaldo Santos é natural de Luanda onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50 integrou o chamado grupo da Cultura. Na esquematização histórico-literária angolana diz-se que pertence à Geração de 50. Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. Membro fundador da UEA, é poeta e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe (contos, 1965); Tempo do Munhungo (crónicas, 1968); Poemas no Tempo (1977); Prosas (1977); Kinaxixe e Outras Prosas; Na Mbanza do Miranda ( conto, 1985); Cesto de Katandu e outros contos ( conto,1986); Nova Memória da Terra e dos Homens ( poesia,1987) A Boneca de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha das Margens é o seu último livro ( romance,1999). Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ele consagra, conferindo-lhe um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade publicou a sua primeira colectânea de contos Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70. O autor de que estamos a falar, situa-se num nível singular de tratamento da linguagem. É um preciosista na depuração do texto narrativo curto e de todos os seus recursos e elementos. Daí que a sua ficção narrativa não tenha conhecido até à década de 90, variações para além do conto (Kinaxixi), crónica (Tempo do Munhungo) e novela (A Boneca de Quilengues). Embora o seu espaço físico e social de eleição seja o Kinaxixi, em Luanda, em A Boneca de Quilengues, desloca essa minúcia para Benguela, realizando pela primeira vez a introdução de termos e vocábulos em língua Umbundu. Chamo, entretanto, a atenção do leitor para A Casa Velha das Margens, o romance há muito esperado deste autor. Foi em 1967 que Mário António, escrevendo sobre a obra de Arnaldo Santos, num texto publicado no Boletim da Câmara Municipal de Luanda, indagava: "Para quando, Arnaldo o teu romance?". Mas o ficcionista do Kinaxixi pauta a sua estratégia criativa por uma perspectiva gradualista, pois antes deste livro, escreveu A Boneca de Quilengues, uma história que anunciava já essa obra de fôlego. A Casa Velha das Margens apresenta um peso específico particular, no contexto da ficção narrativa angolana. Não sendo rigorosamente um romance histórico, nele os elementos históricos constituem uma ossatura deliberadamente construída para situar os factos e as personagens. Mas entre as personagens abundam aquelas que têm alguma importância no conjunto da história social e cultural de Angola no século XIX. É, por conseguinte, visível a pretensão de conferir alguma espessura ao quadro histórico, ao inserir personagens históricas. São elas: o rei Ndunduma do Bié; jornalistas, escritores e tribunos da imprensa do século XIX como José de Fontes Pereira, Joaquim Dias Cordeiro da Matta, João Ignacio de Pinho, Mamede Sant'Ana e Palma. Todavia, tais referências estão feridas de algumas imprecisões que vêm defraudar as expectativas de um leitor angolano. Como compreender por exemplo que o narrador confunda o rei Ndunduma com o Ndunduma we Lépi? Ou ainda o facto de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, o bardo de Cabiri, ser investido nas funções de chefe do concelho (p.11), da divisão de Calumbo(p.16)? No plano da técnica compositiva, Arnaldo Santos privilegia a narração, na medida em que a descrição, entendida como suspensão do fluir da história para se realizarem retratos de personagens e detalhes do cenário, aparece apenas naqueles momentos em que a personagem ou o objecto são apresentados imediatamente antes de um acontecer.Tal se explica igualmente pelo facto de a estrutura do romance não ser linear. A rarefação de diálogos e a dispersão dos núcleos dramáticos ou da sua concentração alternada, comprovam a tendência para o recurso à narração. E a escassez de diálogos, dá lugar ao monólogo interior indirecto que consiste em comentários do narrador à escuta dos pensamentos das personagens. Ora, exactamente por isso, e porque a criatura narradora de Arnaldo Santos, tem a propensão para estar sempre ao corrente do que vai pelos arcanos psicológicos das personagens, a descrição em A Casa Velha das Margens é um expediente veicular de transições, através do qual se cobre a escassa produção de diálogos. Estes aparecem sempre sob forma de descrições e alusões a ideias e pensamentos da personagem. É a isto a que designamos por monólogo interior indirecto. Quando Emídio Mendonça, filho do português António Mendonça (Ngana Makanda) e de Kissama, uma mãe autóctone, natural da margem norte do rio Kwanza, «de regresso do Reino» atraca em Luanda no ano de 1889, apercebe-se imediatamente dos sintomas que o levariam a produzir interrogações sobre a história pessoal e o passado da sua família. Os contactos com notícias do passado começam por realizar-se em Luanda, frequentando o círculo de amigos e compatriotas de seu pai. Mas os valores que predominam neste círculo de quingundos[3], são, entre outros, a avareza, a cobiça, a inveja, a luxúria.«(…) começara a ter consciência que, no futuro, entre ele e os outros estariam sempre os jindeles dos seus pais, espíritos perturbadores a espiarem-lhe cada gesto, escutando as suas palavras, perscrutando-lhe os sentimentos. Não que ele acreditasse que os jingangas lhes trouxessem a fala nos xinguilamentos.»(p.132) Não se sentindo seduzido pelo ambiente que se vive em Luanda e muito menos por aqueles valores, mantem o propósito de, perante a sua condição de órfão de pai e mãe, resistir à tentação de abandonar os ideais que lhe tinham sido inculcados na infância e que estavam irremediavelmente associados ao território da casa onde nascera, num espaço físico e social dominado pelo rio Lucala. A mais violenta de todas as peripécias por que passa Emídio Mendonça, é a primeira, a tentativa de homicídio de que é vítima na localidade de Calumbo, perpetrada por um indivíduo chamado Canvula. Tratava-se ainda de uma violência manifestada por um certo grau de agressividade no plano físico-corporal. Mas tal não esgota as experiências violentas que configuram o processo de provações por que vai passando. Ao chegar à terra natal, Emídio Mendonça confronta-se com o perigo iminente de uma violência que se situa no plano psicológico ou espiritual: era o desaparecimento da sua família e da casa onde crescera, a Casa Velha na fazenda do Hombo onde se escondiam mistérios que interessavam agora decifrar. A salvação contra esse perigo é a memória personificada pelo Mais-Velho Pascoal e o ambaquista Vitorino. O desaparecimento físico da mãe, a morte enigmática do pai, a violência exercida pelo degredado Santos Vaz sobre sua irmã Isabel, foram sendo explicadas pelo Mais-Velho Pascoal com referências às respectivas causas. A todos esses factos se associavam circunstâncias trágicas. No que diz respeiro à mãe "agora que não lhe encontrara nos lugares que a memória guardara da Casa Velha, não era apenas o seu afastamento, mas a própria ausência materializada, a perda da esperança de lhe encontrar"(p.131) Quanto à morte do pai, perante a interpelação de Emídio que admitia a probabilidade de doença, atalhara: (…) a doença nunca vem sozinha(…) Musunga kota, umbanda ndenge.(105) A fatalidade tinha sido ditada contra António Mendonça, pai de Emídio, a partir da data em que decidira ser depositário das mucandas sobre conflitos e reivindicações que eclodiam na região de Massangano, Dondo, Caculo e arredores no século XIX, mas remontando aos tempos da ocupação holandesa. Chegou em caçoada a ser chamado por compatriotas seus, "pai dos pretos". Isto testemunhava-o o Mais-Velho Pascoal. Datava ainda dessa época a sua decisão de indagar os "costumes ancestrais dos quissamas e dos seus ódios e conflitos contra os colonos"(p.119). Perante as revelações do Mais-Velho Pascoal, a Emídio começavam a interessar essas cartas dos amabaquistas depositadas por seu pai num «misterioso livro encadernado de couro", a "carteira das mucandas ambaquistas» (p.120). Havia cinco tipos de cartas ambaquistas[4]: as mucanda ua jindunda, que eram mucandas das queixas; as mucandas ua kuhúnda, mucandas de formar juízos; mucandas ua kusenga que reunia "os casos do abandono dos maridos e restituição de alembamento"; as mucandas ua mixangu ; as mucandas ia rihamba que imitavam o estilo "dos antigos pregadores jesuítas, empoladas de ditames da Bíblia e das leis, ou inspiradas na vida" (p.123). A leitura destas cartas eram feitas na Casa Velha onde nascera Emídio, em sessões públicas a que assistiam os libertos, pois "a fama dessas sessões de leitura, que tinham virado tribunais de milongas, já se estendera, e era demasiado tarde"(p.124). Para Emídio Mendonça, o incêndio que devorara a Casa Velha começava a tomar forma e a ser associada à morte do pai. Mas o incêndio que visava a redução das mucandas dos ambaquistas a cinzas e a liquidação de António Mendonça, o Ngana Makanda, era o que pretendiam todos os colonos que nisto viam a única a forma de silenciar os incómodos das antigas reivindicações autóctones contidas nas mucandas. Quando no Dondo alguém confirmava a conveniência dos incêndios dizendo que eles eram "necessários para fastar a bicharada malsã”(…)(p.126) e acrescentando que o "fogo também cauteriza e purifica…", compreendeu finalmente o terreno ardiloso que pisava. Emídio Mendonça concluía que era apenas um "órfão pardo das Margens " com todo o conjunto de consequências e implicações. Sobre o drama de ser "órfão pardo" conheciam-se muitas anedotas. Emídio Mendonça ouvira contar uma delas, por ocasião da sua passagem por Luanda. Dizia-se que " era uma sorte mal-fadada essa a dos pardos órfãos que inevitavelmente atraía quilombelombes, quingundos, e outras aves abutres, disfarçados de curadores de órfãos, tutores dos conselhos de família, credores, mucunjis das cerimónias de tâmbi(…)"(p.126-127). O desfecho de A Casa Velha das Margens, que é no fundo a biografia de Emídio Mendonça com digressões pela História dos lugares e pinceladas de anedotas do meio social de localidades como e Dondo e respectivo interior, decorre em Luanda no bairro do Kinaxixi como um prolongamento da interpretação das mucandas dos ambaquistas. A Carta de Kijinganu trazida das margens do rio Lucala para a Casa Azul do Kinaxixi, onde se fixara, fugindo a fúria dos novos colonos que ocupavam as Margens, esconde os mesmos mistérios que os exercícios de interpretação realizados por seu pai não tinham alcançado. Com efeito, a Carta de Kijinganu e os efeitos da sua semântica, o poeta Kuxixima kia Kuxixima, Isabel, irmã de Emídio, são personagens que povoam o final do romance e perturbam Emídio Mendonça. Todas elas têm em comum espíritos, visões, vigílias e prodigiosas ocorrências associadas, de uma ou de outra maneira, a reivindicações e heranças da terra. A subjacente cosmovisão do autor assenta no ponto de vista do narrador. E concretiza-se numa reapropriação da herança, da História do lugar, da terra e sua interpretação. A Emídio Mendonça impunha-se a necessidade de enterrar os espíritos dos antepassados. O que sua mãe não fizera. Tal fundamenta a deambulação destes espíritos num lugar como o Kinaxixi também povoado por kiandas. Só o regresso e homenagem aos quinguris de que falava Kissama, sua mãe, poderia salvar Emídio Mendonça de uma catástrofe existencial. Por isso, disse a Dino, seu filho:" Não posso esperar mais aqui em Luanda que um dia me venham agarrar…(…) Vou nas Margens, nos caminhos de Guengue…O Velho Muhongo vai explicar e adivinhar todos os casos que se passaram…"(p.354) Arnaldo Santos é natural de Luanda onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50 integrou o chamado grupo da Cultura. Na esquematização histórico-literária angolana diz-se que pertence à Geração de 50. Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. Membro fundador da UEA, é poeta e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe (contos, 1965); Tempo do Munhungo (crónicas, 1968); Poemas no Tempo (1977); Prosas (1977); Kinaxixe e Outras Prosas; Na Mbanza do Miranda ( conto, 1985); Cesto de Katandu e outros contos ( conto,1986); Nova Memória da Terra e dos Homens ( poesia,1987) A Boneca de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha das Margens é o seu último livro (romance,1999). Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ele consagra, conferindo-lhe um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade publicou a sua primeira colectânea de contos Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70. O autor de que estamos a falar, situa-se num nível singular de tratamento da linguagem. É um preciosista na depuração do texto narrativo curto e de todos os seus recursos e elementos. Daí que a sua ficção narrativa não tenha conhecido até à década de 90, variações para além do conto (Kinaxixi), crónica (Tempo do Munhungo) e novela (A Boneca de Quilengues). Embora o seu espaço físico e social de eleição seja o Kinaxixi, em Luanda, em A Boneca de Quilengues, desloca essa minúcia para Benguela, realizando pela primeira vez a introdução de termos e vocábulos em língua Umbundu. Chamo, entretanto, a atenção do leitor para A Casa Velha das Margens, o romance há muito esperado deste autor. Foi em 1967 que Mário António, escrevendo sobre a obra de Arnaldo Santos, num texto publicado no Boletim da Câmara Municipal de Luanda, indagava: "Para quando, Arnaldo o teu romance?". Mas o ficcionista do Kinaxixi pauta a sua estratégia criativa por uma perspectiva gradualista,pois antes deste livro, escreveu A Boneca de Quilengues, uma história que anunciava já essa obra de fôlego. A Casa Velha das Margens apresenta um peso específico particular, no contexto da ficção narrativa angolana. Não sendo rigorosamente um romance histórico, nele os elementos históricos constituem uma ossatura deliberadamente construída para situar os factos e as personagens. Mas entre as personagens abundam aquelas que têm alguma importância no conjunto da história social e cultural de Angola no século XIX. É, por conseguinte, visível a pretensão de conferir alguma espessura ao quadro histórico, ao inserir personagens históricas. São elas: o rei Ndunduma do Bié; jornalistas, escritores e tribunos da imprensa do século XIX como José de Fontes Pereira, Joaquim Dias Cordeiro da Matta, João Ignacio de Pinho, Mamede Sant'Ana e Palma. Todavia, tais referências estão feridas de algumas imprecisões que vêm defraudar as expectativas de um leitor angolano. Como compreender por exemplo que o narrador confunda o rei Ndunduma com o Ndunduma we Lépi? Ou ainda o facto de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, o bardo de Cabiri, ser investido nas funções de chefe do concelho (p.11), da divisão de Calumbo(p.16)? No plano da técnica compositiva, Arnaldo Santos privilegia a narração, na medida em que a descrição, entendida como suspensão do fluir da história para se realizarem retratos de personagens e detalhes do cenário, aparece apenas naqueles momentos em que a personagem ou o objecto são apresentados imediatamente antes de um acontecer. Tal se explica igualmente pelo facto de a estrutura do romance não ser linear. A rarefação de diálogos e a dispersão dos núcleos dramáticos ou da sua concentração alternada, comprovam a tendência para o recurso à narração. E a escassez de diálogos, dá lugar ao monólogo interior indirecto que consiste em comentários do narrador à escuta dos pensamentos das personagens. Ora, exactamente por isso, e porque a criatura narradora de Arnaldo Santos, tem a propensão para estar sempre ao corrente do que vai pelos arcanos psicológicos das personagens, a descrição em A Casa Velha das Margens é um expediente veicular de transições, através do qual se cobre a escassa produção de diálogos. Estes aparecem sempre sob forma de descrições e alusões a ideias e pensamentos da personagem. É a isto a que designamos por monólogo interior indirecto. Quando Emídio Mendonça, filho do português António Mendonça (Ngana Makanda) e de Kissama, uma mãe autóctone, natural da margem norte do rio Kwanza, «de regresso do Reino» atraca em Luanda no ano de 1889, apercebe-se imediatamente dos sintomas que o levariam a produzir interrogações sobre a história pessoal e o passado da sua família. Os contactos com notícias do passado começam por realizar-se em Luanda, frequentando o círculo de amigos e compatriotas de seu pai. Mas os valores que predominam neste círculo de quingundos[5], são, entre outros, a avareza, a cobiça, a inveja, a luxúria.«(…) começara a ter consciência que, no futuro, entre ele e os outros estariam sempre os jindeles dos seus pais, espíritos perturbadores a espiarem-lhe cada gesto, escutando as suas palavras, perscrutando-lhe os sentimentos. Não que ele acreditasse que os jingangas lhes trouxessem a fala nos xinguilamentos.»(p.132) Não se sentindo seduzido pelo ambiente que se vive em Luanda e muito menos por aqueles valores, mantem o propósito de, perante a sua condição de órfão de pai e mãe, resistir à tentação de abandonar os ideais que lhe tinham sido inculcados na infância e que estavam irremediavelmente associados ao território da casa onde nascera, num espaço físico e social dominado pelo rio Lucala. A mais violenta de todas as peripécias por que passa Emídio Mendonça, é a primeira, a tentativa de homicídio de que é vítima na localidade de Calumbo, perpetrada por um indivíduo chamado Canvula. Tratava-se ainda de uma violência manifestada por um certo grau de agressividade no plano físico-corporal. Mas tal não esgota as experiências violentas que configuram o processo de provações por que vai passando. Ao chegar à terra natal, Emídio Mendonça confronta-se com o perigo iminente de uma violência que se situa no plano psicológico ou espiritual: era o desaparecimento da sua família e da casa onde crescera, a Casa Velha na fazenda do Hombo onde se escondiam mistérios que interessavam agora decifrar. A salvação contra esse perigo é a memória personificada pelo Mais-Velho Pascoal e o ambaquista Vitorino. O desaparecimento físico da mãe, a morte enigmática do pai, a violência exercida pelo degredado Santos Vaz sobre sua irmã Isabel, foram sendo explicadas pelo Mais-Velho Pascoal com referências às respectivas causas. A todos esses factos se associavam circunstâncias trágicas. No que diz respeiro à mãe "agora que não lhe encontrara nos lugares que a memória guardara da Casa Velha, não era apenas o seu afastamento, mas a própria ausência materializada, a perda da esperança de lhe encontrar"(p.131) Quanto à morte do pai, perante a interpelação de Emídio que admitia a probabilidade de doença, atalhara: (…) a doença nunca vem sozinha(…) Musunga kota, umbanda ndenge.(105) A fatalidade tinha sido ditada contra António Mendonça, pai de Emídio, a partir da data em que decidira ser depositário das mucandas sobre conflitos e reivindicações que eclodiam na região de Massangano, Dondo, Caculo e arredores no século XIX, mas remontando aos tempos da ocupação holandesa. Chegou em caçoada a ser chamado por compatriotas seus, "pai dos pretos". Isto testemunhava-o o Mais-Velho Pascoal. Datava ainda dessa época a sua decisão de indagar os "costumes ancestrais dos quissamas e dos seus ódios e conflitos contra os colonos"(p.119). Perante as revelações do Mais-Velho Pascoal, a Emídio começavam a interessar essas cartas dos amabaquistas depositadas por seu pai num « misterioso livro encadernado de couro", a " carteira das mucandas ambaquistas» (p.120). Havia cinco tipos de cartas ambaquistas[6]: as mucanda ua jindunda, que eram mucandas das queixas; as mucandas ua kuhúnda, mucandas de formar juízos; mucandas ua kusenga que reunia " os casos do abandono dos maridos e restituição de alembamento"; as mucandas ua mixangu; as mucandas ia rihamba que imitavam o estilo "dos antigos pregadores jesuítas, empoladas de ditames da Bíblia e das leis, ou inspiradas na vida"(p.123). A leitura destas cartas eram feitas na Casa Velha onde nascera Emídio, em sessões públicas a que assistiam os libertos, pois "a fama dessas sessões de leitura, que tinham virado tribunais de milongas, já se estendera, e era demasiado tarde"(p.124). Para Emídio Mendonça, o incêndio que devorara a Casa Velha começava a tomar forma e a ser associada à morte do pai. Mas o incêndio que visava a redução das mucandas dos ambaquistas a cinzas e a liquidação de António Mendonça, o Ngana Makanda, era o que pretendiam todos os colonos que nisto viam a única a forma de silenciar os incómodos das antigas reivindicações autóctones contidas nas mucandas. Quando no Dondo alguém confirmava a conveniência dos incêndios dizendo que eles eram "necessários para fastar a bicharada malsã”(…) (p.126) e acrescentando que o "fogo também cauteriza e purifica…", compreendeu finalmente o terreno ardiloso que pisava. Emídio Mendonça concluía que era apenas um "órfão pardo das Margens " com todo o conjunto de consequências e implicações. Sobre o drama de ser "órfão pardo" conheciam-se muitas anedotas. Emídio Mendonça ouvira contar uma delas, por ocasião da sua passagem por Luanda. Dizia-se que "era uma sorte mal-fadada essa a dos pardos órfãos que inevitavelmente atraía quilombelombes, quingundos, e outras aves abutres, disfarçados de curadores de órfãos, tutores dos conselhos de família, credores, mucunjis das cerimónias de tâmbi(…)"(p.126-127). O desfecho de A Casa Velha das Margens, que é no fundo a biografia de Emídio Mendonça com digressões pela História dos lugares e pinceladas de anedotas do meio social de localidades como e Dondo e respectivo interior, decorre em Luanda no bairro do Kinaxixi como um prolongamento da interpretação das mucandas dos ambaquistas. A Carta de Kijinganu trazida das margens do rio Lucala para a Casa Azul do Kinaxixi, onde se fixara, fugindo a fúria dos novos colonos que ocupavam as Margens, esconde os mesmos mistérios que os exercícios de interpretação realizados por seu pai não tinham alcançado. Com efeito, a Carta de Kijinganu e os efeitos da sua semântica, o poeta Kuxixima kia Kuxixima, Isabel, irmã de Emídio, são personagens que povoam o final do romance e perturbam Emídio Mendonça. odas elas têm em comum espíritos, visões, vigílias e prodigiosas ocorrências associadas, de uma ou de outra maneira, a reivindicações e heranças da terra. A subjacente cosmovisão do autor assenta no ponto de vista do narrador. E concretiza-se numa reapropriação da herança, da História do lugar, da terra e sua interpretação. A Emídio Mendonça impunha-se a necessidade de enterrar os espíritos dos antepassados. O que sua mãe não fizera.Tal fundamenta a deambulação destes espíritos num lugar como o Kinaxixi também povoado por kiandas. Só o regresso e homenagem aos quinguris de que falava Kissama, sua mãe, poderia salvar Emídio Mendonça de uma catástrofe existencial. Por isso, disse a Dino, seu filho:" Não posso esperar mais aqui em Luanda que um dia me venham agarrar…(…) Vou nas Margens, nos caminhos de Guengue…O Velho Muhongo vai explicar e adivinhar todos os casos que se passaram…"(p.354) Arnaldo Santos é natural de Luanda onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50 integrou o chamado grupo da Cultura. Na esquematização histórico-literária angolana diz-se que pertence à Geração de 50. Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. Membro fundador da UEA, é poeta e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe (contos, 1965); Tempo do Munhungo (crónicas, 1968); Poemas no Tempo (1977); Prosas (1977); Kinaxixe e Outras Prosas; Na Mbanza do Miranda (conto, 1985); Cesto de Katandu e outros contos ( conto, 1986); Nova Memória da Terra e dos Homens ( poesia, 1987) A Boneca de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha das Margens é o seu último livro ( romance,1999). Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ele consagra, conferindo-lhe um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade publicou a sua primeira colectânea de contos Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70. A GERAÇÃO LITERÁRIA DE 80 E SEUS FICCIONISTAS Muito me agradaria saber que o meu leitor frequenta com assiduidade as páginas luzidias desta publicação. E não me importaria, antes pelo contrário reforçaria a minha expectativa, se viesse a chegar ao meu conhecimento o facto de, mesmo sem ser passageiro da companhia aérea angolana, a pessoa que me está a ler cultiva alguma curiosidade e avidez por informações respeitantes à literatura angolana. O que venho hoje propor à leitura, é uma pequena panorâmica sobre a ficção literária angolana, focalizando com alguma particularidade a geração de 80, a que eu próprio pertenço, vista através dos seus nomes mais representativos. Quando falo de ficção literária angolana, estou a pensar num conjunto de textos literários que apresentam uma identidade narrativa reunindo, por conseguinte, determinadas características e qualidades. Tais textos são, de uma maneira geral, narrativas ou narrações de factos reais ou fictícios, vividos ou imaginários que representam o acervo daquilo a que poderíamos designar por ficção narrativa angolana. É um elenco que comporta uma diversidade de formas de discurso em prosa como romances, novelas e contos. O romance, tal como é praticado pelos autores da geração de 80, a sua caracterização, os temas mais recorrentes e as inovações que reflecte no plano formal e da linguagem, vai ser o objecto desta breve panorâmica. Mas vejamos em primeiro lugar o que, do ponto de vista histórico, é a narrativa e o romance em Angola. Ora, como é sabido o romance é introduzido nas literaturas africanas com a implantação do sistema colonial no século XIX. Uma das mais evidentes manifestações da sua existência no espaço angolano é a proliferação da literatura colonial. Os primeiros textos romanescos e narrativos de fôlego escritos por naturais de Angola são criações de escritores da geração de 1890. Datam dos fins do século XIX. Trata-se de obras de Pedro Félix Machado: Scenas de África e o O Filho Adulterino; e de Jooaquim Dias Cordeiro da Matta: O Loandense da alta e da baixa esfera, Repositório de Coisas Angolenses (crónica) e O Doutor Gaudêncio (romance). À semelhança do que se verifica em outros espaços coloniais, também em Angola emerge um romance colonial de pendor exótico com fundamentos em mistificações e doutrinas racialistas. Ele tipifica um conjunto de textos motivados por uma pretensa “missão civilizadora” que é atribuída a personagens racialmente brancas, relegando-se as personagens de raça negra a papeis e funções secundárias, de vítimas e pacientes nas histórias que se constroem e em que avulta a paisagem física,social e humana de Angola. É a chamada literatura ultramarina, designação que é substituída na década de 60 por literatura colonial. A referida produção literária , começa a desenvolver-se em Angola, a partir dos anos 20 deste século, através dos concursos de literatura colonial portuguesa,promovidos pela Agência Geral do Ultramar e dos estudos sobre Angola numa perspectiva etnográfica, cobrindo as línguas e o folclore. No parágrafo único do artigo 1º da Portaria nº6.119, que em 1926 consagra a abertura daqueles concursos, lê-se: “será sempre preferida a literatura na forma de romance, novela narrativa, relato de aventuras,etc. que melhor contribua para despertar, sobretudo na mocidade, o gosto pelas causas coloniais.” Os primeiros prémios de literatura colonial foram atribuídos a dois autores portugueses, nomeadamente, Gastão de Sousa Dias com África Portentosa e Brito Camacho com a obra Pretos e Brancos. Um outro autor de assídua participação nos referidos concursos e cuja pertença das suas obras pode dar lugar a fecundos debates sobre a estética da narrativa angolana, é Castro Soromenho. Em 1939, vai a concurso com um livro de contos intitulado Nhari. A progressiva expansão do romance, enquanto género do discurso em prosa, deve-se ao florescimento dos jornais nos fins do século XIX e princípios deste. De igual modo à institucionalização do ensino liceal de que sairiam leitores preparados e potenciais escritores. Daí que além das obras de Pedro da Félix Machado e Joaquim Dias Cordeiro da Matta, publicam-se, nos anos 10 e 20, importantes narrativas, algumas das quais de cunho autobiográfico,como é História de Uma Traição de Pedro da Paixão Franco. Até à década de 30, só O Segredo da Morta, romance de António de Assis Júnior, dava sinais de uma verdadeira ficção literária autónoma e moderna, devendo ser considerado romance – fundador. Antes da sua publicação em livro, foi sendo revelado ao público sob a forma de folhetim no jornal A Vanguarda. Só em 1934 viria a ser editado. António de Assis Júnior nasceu em Luanda, no dia 13 de Março de 1887 e faleceu em Lisboa no dia 27 de Maio de 1960. Com a década de 40 consagra-se um outro cultor da narrativa. Estamos a referir-nos a Óscar Ribas cujos méritos são confirmados com a publicação do seu romance Uanga em 1950, mas definitivamente, quando dá à estampa Ecos da Minha Terra em 1952. No dizer do ensaísta Mário António, Óscar Ribas “surge como um elo necessário entre essa tradição em perigo e os anseios de afirmação literária das gerações mais novas da sua terra.” Em 1947, na ressaca do terrível período de repressão exercido sobre a imprensa e o associativismo autóctones, durante o regime de Norton de Matos, destaca-se no meio jornalístico e literário luandense o nome de Domingos Van-Dúnem que se estreia no Diário de Luanda com o conto A Praga. Nesta geração não se contam muitos praticantes da ficção narrativa. A primazia é dada à poesia. É uma geração de poetas que se notabiliza e em que avultam os grandes da poética fundadora angolana. Os narradores reaparecem nas décadas de 50 e 60 com os nomes de Luandino Vieira, Arnaldo Santos e Manuel Santos Lima. Ainda neste período revelam-se outros nomes como Henrique Abranches, Uanhenga Xitu, Pepetela e Manuel Rui. Esta geração caracteriza-se pela sua atitude ética. O seu comportamento colectivo sedimenta-se de um modo geral no compromisso político com a causa do nacionalismo. Por essa razão, verifica-se que uma boa parte dos seus intregrantes vivem profundas experiências associadas a tal compromisso. Suportam condenações de pesadas penas de reclusão em severos regimes concentracionários. São os casos, por exemplo, de Luandino Vieira e Uanhenga Xitu.Outros engajam-se em militâncias directas no Movimento de Libertação Nacional ou indirectas através de actividades cívicas em grupos de intelectuais de esquerda na Europa. No livro A Geração da Utopia, Pepetela traça uma espécie de biografia da sua geração, com incidências sobre aquilo que eram os ideias e o actual desencanto que o comportamento colectivo dessa geração e seus representantes infundem, após o período pós-independência, particularmente com a instauração da II República e do pluralismo político. A geração de 70 é um prolongamento natural da anterior, já que não ocorrem importantes soluções de continuidade. É que observa-se ainda entre alguns dos seus membros a supermacia de uma atitude ética relativamente aos imperativos de ordem estética e literária da sua época. Esta geração representa o espírito da época de transição para o período pós-colonial. Apesar das experiências de heróis e mártires, igualmente vividas pelas duas gerações imediatamente anteriores, não me parece que elas e a sua escrita se tenham constituído em modelo de superação para a geração de 80. Há uma descontinuidade obervável na escrita de ficção e nos padrões estéticos, provocada pela exacerbação de temas literários marcados, de certo modo, por uma ideologia política oficial e sua introdução nos manuais escolares. Mas tal constatação só faz sentido se a associarmos ao facto de, à data da independência, os liceus e os três centros universitários de todo o país serem frequentados por um número de jovens angolanos, até aí nunca visto. Para um país que saía das malhas de um colonialismo atroz, essa população estudantil não deixava de representar uma justificada expectativa. É que a política educacional portuguesa para Angola colonial sofrera um profundo abalo a partir de 1960. A filosofia que subjaz a tais modificações da política colonial assentava ainda no assimilacionismo. Em 1970, Pinheiro da Silva, o secretário provincial da educação de Angola, falava da “ integração dos portugueses africanos no modo de vida moral, espiritual e material dos portugueses europeus”. Segundo as estatísticas da época, de uma taxa de matrícula inferior a Moçambique no início das reformas, a população escolar angolana do ensino liceal, por exemplo, passaria a 10.779, um número superior ao de Moçambique, que era de 10.524. No ensino universitário, o efectivo angolano, com 1.557 era igualmente superior ao de Moçambique, registando 1.145. Realizada a ruptura no plano dos fundamentos do próprio Estado, nos anos subsequentes à independência, lançavam-se bases para as necessárias reformas das políticas educativas e culturais. Esperava-se que, num contexto pós-colonial, estas viessesm a produzir efeitos multiplicadores da angolanidade literária. Todavia, os “produtos” desse sistema pós-colonial representavam, pelo contrário, amostras de um processo de descontinuidade que se observava relativamente à geração de 70. Estou a referir-me à geração literária de 80 – a geração das incertezas - que realiza a sua formação biológica e sociológica em circunstâncias de elevadas incertezas do ponto de vista ontológico, além de viver experiências catastróficas e graves como a guerra. Mesmo assim ela afirma-se logo no princípio da década de 80, através de manifestações associativas e participações em concursos literários. É a vaga das Brigadas Jovens de Literatura. As primeiras formam-se nos principais centros urbanos, nomeadamente, Luanda, Lubango e Huambo, igualmente cidades em que se encontram implantados o ensino médio, pré-universitário e universitário aos quais se juntam os seminários e outros estabelecimentos eclesiásticos. Para a ficção narrativa, a geração de 80 traz vários nomes em que se incluem aqueles que emergem na diáspora. A produção global desta geração comporta cerca de cinquenta títulos. Do interior destacam-se entre outros, Cikakata Mbalundu, um dos fundadores da Brigada da Huíla; Mota Yekenha, um dos poucos clérigos da geração que se dedicam ao romance, trazendo inovações no capítulo da linguagem, ao lado de Jacinto de Lemos; João Melo cujo livro de contos introduz um novo segmento temático, ao dar um tratamento privilegiado ao tema do amor e do erotismo. O mesmo acontece com Rosária Silva, um dos poucos nomes femininos que se revelam neste género em prosa. Da diáspora são dignos de referência Sousa Jamba e José Eduardo Agualusa. Quais são então alguns dos ficcionistas mais representativos da geração de 80? Cikakata Mbalundu É natural do Mungo, província do Huambo onde nasceu em 1955. Fez os estudos na capital da província. Fixou-se na cidade do Lubango em fins da década de 70. Aí iniciou os estudos universitários em filologia germânica, vindo a licenciar-se em psicologia pelo ISCED, designação dada posteriormente a antiga Faculdade de Letras, no âmbito da reforma do ensino superior. Reside actualmente em Portugal onde prepara a sua tese de doutoramento na Universidade do Minho. Publicou dois romances: Cipembúwa (1986) e O Feitiço de Rama de Abóbora (1996). Com ambas as obras o autor participou no concurso do Prémio Sonangol de Literatura, tendo a primeira sido distinguida com uma menção honrosa e a segunda mereceu o troféu do ano de 1991. Jacinto de Lemos Nasceu em Icolo - e - Bengo a 2 de Janeiro de 1961. É técnico médio de bioquímica. Publicou Undengue (1989) que foi menção honrosa do Concurso Sonangol de Literatura em 1986 e O Pano Preto da Velha Mabunda ( 1997). João Melo É natural de Luanda, onde nasceu em 1955. Fez estudos de Direito em Coimbra. Licenciou-se em comunicação social pela Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro, tendo obtido o mestrado em comunicação e cultura. Foi Secretário Geral da União dos Escritores Angolanos. Actualmente é deputado à Assembleia Nacional. Publicou uma única obra de ficção narrativa, Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir (1998). José Eduardo Agualusa Nasceu em Dezembro de 1960, na cidade do Huambo. Reside em Lisboa. É jornalista do Público e da RDP-África. Publicou A Conjura (1989) que mereceu o Prémio Sonangol de Literatura, D. Nicolau Água-Rosada e Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis (1990), A Feira dos Assombrados (1992), Estação das Chuvas (1996), Nação Crioula (1997). Mota Yekenha Nasceu no Cipeio, província do Huambo, em Fevereiro de 1962. Aí viveu a infância e juventude. Frequentou a escola primária na missão católica local. Formou-se em filosofia e teologia no Seminário Maior do Huambo. Tem um romance publicado em 1992, sob o título Kambonha, com a chancela da Europress. Roderick Nehone Nasceu em Luanda a 26 de Março de 1965. Fez os estudos secundários e universitários em Cuba. Licenciou-se em Direito pela Universidade Central de Las Villas. É um dos autores que mais recentemente se revelaram no plano da ficção narrativa. Publicou Estórias Dispersas de um Reino (1996) e O Ano do Cão (1998). Ambas as obras foram agraciadas com o Prémio Sonangol de Literatura. Rosária Silva É natural do Kwanza Norte, onde nasceu em 4 de Abril de 1959. Aí realizou os estudos primários e secundários. É formada em Ciências da Educação, na especialidade de linguística portuguesa, pelo Instituto Superior da Universidade Agostinho Neto. Publicou Totonya (1998),uma narrativa que mereceu menção honrosa do Prémio Literário António Jacinto. Sousa Jamba Nasceu na vila do Dondi, província do Huambo, em 1966. Passou a infância na capital da província. Em 1976 emigra para a Zâmbia, em consequência da guerra. Fez os estudos em língua inglesa, e com ela se iniciou na actividade literária. Em 1986 foi para Londres com o objectivo de estudar jornalismo. Trabalhou para o jornal The Spectator onde lhe foi atribuído o prémio Shiva Naipul. Reside actualmente em Londres. Publicou dois romances: Patriotas (1991) e Confissão Tropical. Nas obras dos autores que constituem o elenco dos mais representativos da geração de 80, observa-se a predominância de quatro temas principais: a guerra e seu impacto na psicologia colectiva pós-colonial ( Cipembúwa, Patriotas); o sagrado na vida quotidiana (O Feitiço de Rama de Abóbora, O Pano Preto da Velha Mabunda, Totonya); o amor e o erotismo ( Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir, Totonya); a ironia sobre degradação social e a precariedade da existência humana ( Kambonha, O Ano do Cão). No plano da estética narrativa, verifica-se uma diversidade de recursos, destacando-se a linguagem, em que se notam ocorrências e situações de diglossia imprópria, os diálogos, a construção de personagens, sua tipologia e tratamento. Tais aspectos evidenciam já sinais de uma ruptura, relativamente à ficção das décadas de 60 e 70, apesar de os seus indícios não serem ainda muito abundantes. A NOVA GERAÇÃO DE POETAS ANGOLANOS Embora a literatura angolana deva ser analisada em três grandes vertentes, nomeadamente a literatura oral, a literatura escrita el línguas nacionais e a escrita em língua portguesa, limitarei o campo desta perquirição à poesia el língua portuguesa escrita por poetas da Geração das Incertezas, ou seja, a Geração de 80. Ne periodologia literária angolana do século XX, registam-se quatro gerações de poetas: a) Geração de 40 (Geração da Mensagem) b) Geração de 50 (Geração da Cultura) c) Geração de 70 (Geração do Silêncio) d) Geração de 80 (Geração das Incertezas) As três primeiras gerações, ao contrário da última, emergem no contexto da situação colonial. O período que tem início com a independência traduz, por si só, uma ruptura, podendo denominar-se como período pós-independência. Do ponto de vista literário, tal período há-de ter na Geração de 80 os expoentes das respectivas manifestações literárias. Vou, portanto, falar-vos desta geração. Por isso, convido o leitor a acompanhar-me. Acabaremos por empreender um esforço de selecção e depuração, incidindo sobre alguns autores e sua obra. Eles são cerca de três dezenas e publicaram aproximadamente cinquenta livros. Ao falar dos autores, interessa referir as suas idades ou datas de nascimento, por constituirem um grupo reunindo um determinado tipo de características. A proximidade etária tem grande importância para compreender as suas atitudes e tendências estáticas e criativas. Grande parte destes autores nasceram no período compreendido entre 1955 e 1966, durante o qual ocorreram factos de relevância histórica e sociológica. É o período das independências políticas em África e da continuação das resistências contra o colonialismo, através da luta armada, como são os casos de Angola, Guiné-Bissau, Moçambique. Nas décadas de 50 e 60, Angola sob o domínio colonialfoi sacudida por uma forte onda de rebeliões que assinalam o início da guerra de guerrilha, ou guerra colonial, como também lhe chamam. Como consequência disso, o poder colonial empreende accções de reforma ao sistema, desde a legislação sobre o chamado trabalho indígena, numa tentativa de suprimir a prática da discriminação racial, passando pela instauração de um sistema de ensino que se pretendia multiracial, indo até à criação dos Estudos Gerais Universitários e à ocorrência de fenómenos de mobilidade e anscensão social de uma certa camada de negros com a sua integração no funcionalismo público e em outros empregos que conferiam maior status social e económico. Nesse contexto destaca-se a pedagogia da língua e da literatura portuguesa, de outras línguas e literaturas. Uma boa parte dos membros da geração de que estamos a falar frequenta os Liceus e a Universidade, cujos currículos obedecem aos cânones literários ocidentais. Por circunstâncias várias, alguns deles cedo tomaram contacto com textos de autores angolanos e tendências literárias de pendor autonomista. Com a independência política de Angola, em Novembro de 1975, é fundada neste mesmo ano a União dos Escritores Angolanos cuja proclamação é feita sob os auspícios da «vinculação da criação literária ao processo revolucionário». Este compromisso com o «processo revolucionário» dá lugar a uma orientação ideológica das manifestações literárias e, por conseguinte, à censura de livros e publicações a introduzir no mercado. De tal modo que o mercado do livro passou a ser dominado, durante muito tempo, pela literatura dos países socialistas, tendo sido banida a literatura e autores de países capitalistas. É nesse ambiente que ocorre a socialização da Geração de 80. Do ponto de vista biológico alcança a maturidade nos fins da década de 70 e consolida-se na década de 80 com a publicação de livros a que se junta uma intensa e eufórica actividade associativa de jovens nos principais centros urbanos de Angola. A expressão desse movimento associativo está nas Brigadas Jovens de Literatura, que tendo a primeira sido proclamada em Luanda seguiram outras em várias capitais de província e algumas cidades, tais como Lubango, Huambo, Lobito, Uige, Namibe. Lendo a obra dos poetas da Geração de 80 e tendo em conta a sua atitude perante a poesia, observo quatro categorias de autores: - Os epígonos que, além de não trazerem qualquer contribuição à literatura angolana, falham pela ineficácia criativa e estética; - Os intermitentes ou inconstantes, que pendem entre o discurso da poesia e o resto que não é poesia, preocupados com as situações efémeras, nomeadamente as da consagração; - Aqueles que, apesar de uma dicção individual visível e alguns indícios de inovação ao nível formal, todavia, não realizam qualquer ruptura no plano dos referentes; - Os inovadores, que procuram na experiência individual os dramas do viver colectivo, recorrendo à novidade do vocabulário e estratagemas de articulação poética. As duas últimas categorias constituem os grupos dos dignos representantes dessa geração de poetas, embora tal constatação não signifique um reconhecimento eterno e definitivo da sua qualidade. A primeira destas duas categorias tem os seus expoentes em Lopito Feijóo com o seu opúsculo Doutrina; Ana de Santana com Sabores, Odores e Sonhos; Lisa Castel com Mukanda; José Luís Mendonça com Gíria de Cacimbo; João Melo com tanto Amor e O Caçador de Nuvens; António Panguila com o Vento do Parto e Conceição Cristóvão com Amores Elípticos; Maria Alexandra Dáskalos com Delícias. Quanto à segunda categoria destacam-se João Maimona sp;com As Abelhas do Dia e Traço de União; José Luis Mendonça com Respirar as Mãos na Pedra, Logarintimos da Alma, Quero Acordar a Alva; Rui Augusto com a Lenda do Chá, Amor Civil e Colar de Maldições; e Frederico Ningi com Os Címbalos dos Mudos. Quem são eles do ponto de vista da sociologia literária? ANTÓNIO PANGUILA António Panguila, nasceu a 15 de Julho de 1963. É formado em História pelo Instituto Superior de Ciências da Educação. Foi durante algum tempo professor do ensino secundário. Presentemente é funcionário bancário. Na década de 80 pertenceu ao grupo literário OHANDANJI, além de ter sido membro da Brigada Jovem de Literatura de Luanda. É um poeta que exibe o domínio de alguns recursos peculiares, destacando-se a recorrência da repetição e da aliteração. Os seus textos trazem a marca característica da brevidade e são de um modo geral curtos, do ponto de vista estrutural. Em 1996, arrebatou o Pémio Literário Cidade de Luanda, com o livro Amor Mendigo. É membro da União dos Ecritores Angolanos. Publicou: · O Vento do Parto (poesia, 1994) · Amor Mendigo (poesia,1996) FREDERICO NINGI Frederico Ningi nasceu em Benguela a 17 de Fevereiro de 1959.Fez os estudos primários e secundários na cidade natal e em Luanda realizou estudos de jornalismo.Presentemente é assistente de comunicação e imagem da Sonangol Aeronáutica. Filho de pais tocoístas, sobre os quais se abateu a restrição de liberdade religiosa na década de 60, cedo começou a ler Bíblia nas versões em Umbundu e Português, tendo-se tornado na adolescência leitor assíduo da literaturta espiritual oriental e praticante de yoga. Enquanto poeta integra uma das quatro tendências em que podemos analisar a poesia da geração de 80. Faz parte daquele grupo de poetas iconoclastas, que além de perturbarem a estrutura morfológica das letras e palavras com o jogo de maiúsculas, a presença de termos em línguas nacionais, introduzem uma ordem visual nos seus textos,produzindo um resultado surpreendente na combinação de fotografia, grafismo monocromático e gravuras de tratamento informático. Dedica-se igualmente à fotografia cuja actividade desenvolve de modo quase profissional. É membro da União dos Escritores Angolanos e da União dos Artistas Plásticos. Publicou: · Os Címbalos dos Mudos (1994) · Infindos na Ondas (1998) JOSÉ LUÍS MENDONÇA José Luís Mendonça nasceu a 24 de Novembro de 1955, no Golungo Alto, província do Kwanza Norte. Jornalista e poeta, é funcionário do UNICEF Angola, onde exerce actualmente as funções de assistente de informação. Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor de rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia angolana, preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de 80, a chamada Geração das Incertezas. Inscreve-se numa das quatro tendências em que podemos analisar a poética dessa geração, caracterizando-se particularmente pelo rigor e intencionalidade na construção de metáforas e pela associação de sentidos, quando é confrontado com a necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética. Escreve para diversos órgãos de imprensa angolanos e tem participado em vários festivais internacionais de poesia. Figura em antologias de poesia angolana publicadas no Brasil e Portugal. É membro da União dos Escritores, desde de 1984. Publicou seis livros de poesia: · Chuva Novembrina (1981, Prémio de poesia Sagrada Esperança, INALD,1981); · Gíria de Cacimbo ( Prémio Sonangol de Literatura, União dos Escritores Angolanos, 1986); · Respirar as Mãos na Pedra ( Prémio Sonangol de Literatura, União dos Escritores Angolanos,1986); · Quero Acordar a Alva (Prémio de Poesia Sagrada Esperança,ex-aequo, INALD,1996); · Logaríntimos da Alma- Poemas de Amar, (União dos Escritores Angolanos,1998); · Ngoma do Negro Metal (Edições Chá de Caxinde, 2000) JOÃO MAIMONA Nasceu a 8 de Outubro de 1955, em Kibocolo, Maquela do Zombo. Estudou humanidades científicas em Leopoldeville. Em 1978, fixou residência na província do Huambo, onde se licenciou em medicina veterinária. É diplomado em Estudos Superiores Especializados de Virologia Médica e Epidemiologia Animal, pelo Instituto Pasteur de Paris e pela Ecole Nationale Veterinaire d'Alfort, França. É quadro do Ministério de Agricultura e do Desenvolvimento Rural e desempenhou as funções de Director Nacional do Instituto de Investigação Veterinária (I.I.V.), de 1991 a 1993. É assistente da Universidade Agostinho Neto. Foi membro fundador da Brigada Jovem de Literatura do Huambo. É membro da União dos Escritores Angolanos. Em 1984, arrebatou o prémio Sagrada Esperança com o livro de poesia Trajectória Obliterada. Em 1987, foi distinguido com a medalha de bronze no concurso internacional de poesia, organizado pela Academia Brasileira de Letras, na cidade do Rio de Janeiro. Tem colaboração dispersa pela imprensa angolana e estrangeira. Figura na Antologia No Caminho Doloroso das Coisas (1988). É deputado à Assembleia Nacional. Publicou: · Trajectória Obliterada (poesia, 1985); · Les Rose Perdues de Cunene (poesia, 1985); · Traço de União (poesia, 1987, 1990); · Diálogo com a Peripécia (teatro, 1987); · As Abelhas do Dia (poesia, 1988, 1990); · Quando se ouvir o sino das sementes (poesia, 1993); · Idade das Palavras (poesia, 1997); · No Útero da Noite (poesia, 2001); · Festa de Monarquia (poesia, 2001). JOÃO MELO João Melo é jornalista, escritor, publicitário. Nasceu em Luanda, em 1955. Estudou Direito em Coimbra e em Luanda. Licenciou-se em Comunicação Social e fez o mestrado em Comunicação no Rio de Janeiro. Dirigiu vários meios de comunicação angolanos, estatais e privados. Foi secretário-geral da União dos Escritores Angolanos. Actualmente, além de presidente da Comissão Directiva da UEA, dirige uma agência de comunicação privada e é deputado à Assembleia Nacional. Publicou: · Definição (poesia, 1985); · Fabulema (poesia,1986); · Poemas Angolanos (poesia, 1989); · Tanto Amor (poesia,1989); · Canção do Nosso Tempo (poesia, 1991); · O Caçador de Nuvens (poesia, 1993); · Limites & Redundâncias (poesia, 1997); · Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir ( contos,1998); · Jornalismo e Política(ensaio,1991). FERNANDO KAFUKENO Fernando Kafukeno nasceu em Luanda aos 18 de Novembro de 1962, onde fez os estudos primários, secundários e pré-universitários. Foi membro da Brigada Jovem de Literatura de Luanda. Em 1987 integrou o elenco directivo da Brigada Jovem de Literatura de Angola. Organizou tertúlias literárias que cujo cenário era a cervejaria Biker, na baixa de Luanda. Os seus primeiros poemas foram publicados no suplemento cultural do Jornal de Angola. Na fase inicial da sp;sua carreira, demonstrou sempre uma avidez de leitura e convívio pessoal com outros poetas. Assim se explica a amizade que na década de 80 travou com o malogrado David Mestre. Estamos, pois, diante de um poeta que, ao lado de outros mais ousados da sua geração, e pugnando por uma certa discrição mediática, apresenta um elevado nível de elaboração no fazer da poesia, recorrendo ao experimentalismo poético, a um selectivo acervo vocabular brandamente marcado pela topografia de Luanda e à construção do texto curto e denso. É uma revelação de vulto na poesia angolana da geração de 80, a chamada geração das incertezas. É membro da União dos Escritores Angolanos. Arrebatou o Prémio de Literatura Cidade e Luanda 1999 com o livro Missangas !Kituta Publicou: · Boneca do Bê-Ó (1983); · Na Máscara do Litoral ( 1997); · Sobre o Grafite da Cera (2000); · Missangas Kituta (2000). LOPITO FEIJÓO J.A.S. Lopito Feijoó nasceu no Lombe, província de Malanje a 29 de Setembro de 1963. Passou a infância em Maquela do Zombo e adolescência em Luanda, no bairrro do Cazenga. Fez os estudos primários, secundários e pré-unviversitários em Luanda. Na década de 80 foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura de Luanda e realizou estudos de Direito na respectiva Faculdade da Universidade Agostinho Neto. Fez parte do elenco de direcção da Brigada Jovem de Literatura até 1984, data em que, &nb sp;com outros membros que pugnavam pela ruptura dos cânones do cantalutismo e pela busca de novas formas estéticas e semânticas para a Literatura Angolana, se constituíu o Grupo Literário OHANDANJI. Destaca-se na sua geração pela sua actividade de editor de publicações informais e plaquettes, além de boémio alimentador de polémicas, é activo frequentador de tertúlias, praticante da crítica e do ensaio nos anos 80. Mas é sobretudo com o texto poético que se firmou no panorama da poesia angolana, caracterzando-se, para além do experimentalismo, por uma certa iconolastia e erotização do vocabulário da poesia. Em 1985, é-lhe atribuída menção especial no Concurso literário do INALD pelo livro Entre o Ecran e o Esperma. É membro da União dos Escritores Angolanos. Publicou: ·Doutrina (poesia, UEA, 1987); · Me Ditando; · Rosa Cor de Rosa; · Corpo-a-Corpo (plaquettes de poesia, 1987); · No Caminho Doloroso das Coisas; · Antologia de Jovens Poetas Angolanos (UEA 1988); · Cartas de Amor (UEA, poesia, 1990); · Meditando (ensaio e crítica, 1994) RUI AUGUSTO Jo Rui Augusto nasceu a 26 de Julho de 1958, na região de Camabatela. Fez parte daqueles grupos de jovens que na efervescência eufórica da independência integraram as forças armadas. Fez estudos universitários de Economia na Universidade Agostinho Neto. Na década de 80, exerceu actividades ligadas a edição de publicações, tendo sido revisor no Jornal de Angola, membro do conselho editorial do semanário cultural Angolê-Artes e Letras e da revista Mensagem. Desde 1992, tem vindo a dedicar-se à actividade política, sendo deputado à Assembleia Nacional. Além de ensaísta de boa prosa sem livro publicado, com provas dadas nas colunas da imprensa, é, no entanto, um dos mais importantes poetas da Geração Literária de 80, encabeçando aquela corrente ou tendência que se caracteriza pelo tratamento de temas associados à dimensão ontológica, mais concretamente a perda do sentido da existência humana. Publicou: · A Lenda do Chá (poesia, 1987); · O Amor Civil (poesia, 1991); · Colar de Maldições (poesia, 1994). É membro da União dos Escritores Angolanos. JOÃO TALA João Tala nasceu em Malanje a 19 de Dezembro de 1959. É médico exercendo a profissão como interno em alguns hospitais de Luanda. Iniciou a sua actividade literária na cidade do Huambo, onde cumpria o serviço militar e foi co-fundador da Brigada Jovem de Literatura. Apesar de ter frequentado círculos literários daquela cidade, de que despontaram ainda na década de 80 importantes nomes da novíssima poesia angolana como João Maimona, o seu primeiro livro de poesia sai a público apenas em 1997. Arrebatou o prémio Primeiro Livro da União dos Escritores em 1997 e o promeiro lugar dos Jogos Florais do Caxinde em 1999. Parecendo justificar o respeito que nutre pela poesia, o seu livro de estreia é, apesar dos cerca de 15 poemas, uma auspiciosa contribuição para a renovação e diversidade do discurso poético angolano. O segundo livro voltou a merecer um acolhimento encomiástico da parte de José Luís Mendonça, outro expoente da sua geração, que o considera como uma vocação poética a irromper no universo das letras angolanas com soberania inerente aos grandes criadores. Publicou: · A Forma dos Desejos (poesia, 1997); · O Gasto da Semente (poesia, 2000) É membro da União dos Escritores Angolanos |
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