Leituras Peregrinas
BOAVENTURA CARDOSO: UM FICCIONISTA ANGOLANO QUE EXPLORA TEMAS LIGADOS À RELIGIÃO

Boaventura  Cardoso pertence geração  literária de 70. Nasceu em Luanda a 26 de Julho de 1944, passou parte  da sua  infância  na cidade  de  Malanje.  Fez  os  estudos  primários  e  secundários  em  Luanda.  É licenciado  em  Ciências  Sociais. Foi Secretário Estado da Cultura Ministro da Informação. Presentemente desempenha o de Embaixador de Angola em Itália, depois de ter passado por Roma.

O  início  da  sua  carreira  literária  data  de  1967,  com  a  publicação  de   vários   contos  e   poemas   em jornais   luandenses.

É  um  ficcionista  angolano  com  uma  obra  feita  de  seis  livros, sendo   três  de contos e três romances, nomeadamente:  Dizanga  dia  Muenhu,  O  Fogo  da   Fala,  A  Morte  do Velho, Kipacaça (conto) e O Signo do Fogo, Maio, Mês de Maria; Mãe, Materno Mar ( romance).

O meu breve  exercício de  leitura incidirá sobre os seus dois últimos os romances têm comum facto de os títulos  registarem  a  recorrência  M, além  do facto se narrarem histórias em que os personagens centrais revelam  uma  capacidade  de  interpretar os sinais do mundo invisível, dos espíritos outros sobrenaturais. No   plano   simbólico,  tal  torna-se  possível  com  o  recurso  a  elementos  cosmogónicos  como  o  fogo, intermediários  hierofânicos,  como a cabra Tulumba em Maio, Mês de Maria e cobras, águias, associados
a  outros  elementos  da  natureza em  Mãe,  Materno Mar. As festas apoteóticas constituem igualmente um aspecto comum. São momentos que ocorrem no desfecho das histórias.

Maio,  Mês  de  Maria  é  a  encenação  da  crise  vivida,  no  imediato   pós-independência,   pelos   estratos sociais  constituídos  por  angolanos  que  constituíam  aquilo  a  que  alguns  sociólogos designariam por pequena  burguesia  autóctone.  João Segunda é o protagonista. Ao sentir-se vítima de um sistema social, económico que se implanta e lhe vem quebrar as expectativas de prosperidade e ascenção para os filhos, João  Segunda  começa  por abandonar Dala Kaxibo, a localidade onde vivia. Fixa-se em Luanda. Começa então a  testemunhar  a sua  própria  decadência.  A morte da esposa e as peripécias da privação material generalizada  e dos valores que lhe são associados, traduzem-se na sua personalidade em patologias de foro psiquiátrico. Na sua vida privada, tal patologia começa por exprimir-se através de uma relação de cariz sagrado que estabelece com Tulumba, uma cabra domesticada.

Boaventura Cardoso retoma, neste seu novo romance, o tema do sagrado e da religião de um modo geral. Mãe,  Materno  Mar,  uma  narrativa  que não linear na sua estrutura superficial, comporta a história de uma viagem de comboio feita em 15 anos. Tal é a duração do tempo da história.

Dividido  em três  partes, nomeadamente  A Terra  O Fogo  e A Água  é um texto que apresenta pelo menos duas histórias secundárias enxertadas na narrativa primária. A velocidade que o narrador imprime dá uma configuração  formal  dispersiva  e caótica  a essas   histórias.  Além  de  apresentarem  características  de conto,  pela  incidência que se faz sobre a obsessão das personagens, no caso de Manecas, e o passado pessoal,  no  caso  Homem  de  Fato Preto. Estas duas personagens estão marcadas por obsessões que representam  casos  clínicos  de natureza  psicanalítica.  Mas  o  seu  estudo  implicaria  o  exercício de um discurso  psicanalítico  não  ortodoxo  que  teria  de  incorporar  elementos  da ciência Kimbanda, já que as obsessões  de  Manecas  decorrem  do  de ser kianda, menino-das-águas ou menino-feminino, de acordo com a cosmogonia Kimbundu.

A alusão  à  velocidade  tem  alguma  pertinência,  pois  o  comboio  e  as  contigências  que afectam a sua função, enquanto meio de transporte, constituem os factores que desencadeam os comportamentos mais relevantes das personagens da história.

Como  símbolo  de  movimento,   encurtando   o   tempo   e   o    espaço,   o    comboio    não   desempenha exclusivamente  a  função  de  meio  de transporte. Pelo contrário, transforma-se em espaço habitacional e simboliza, por outro lado, o espaço da desordem e do caos. É o caos que afecta o movimento e a velocidade do comboio.

Além  do  comboio,  há  ainda  o  simbolismo  da  Terra, da Água e do Fogo. São sub-títulos das partes que constituem  a  ossatura do livro. E com estas denominações simbólicas o autor pretende dar relevância ao segmento  da  história e às personagens que nelas se destacam. Eis o que, no meu entender, significam:
A Terra, a vida e a morte; O Fogo, a vida sexual, o erotismo e a procriação; A Água, o mundo do sagrado e a religiosidade.

O elenco  de  personagens  é  extenso.  Mas  pode  em  síntese  ser  assim  constituído: a  família da noiva em  que  se   destaca  seu  pai;  Ti  Lucas,  o  ceguinho;  Manecas,  para   quem  «aquela  viagem era só rio correndo  as  correntes   águas.  O  tempo  era  constante   fluidez.   E   das   margens  do   rio  não   vinham notícias  nenhumas»;  as  treze  raparigas  de  óculos  escuros; o Homem de fato preto; disc Jockey; quatro pastores e um profeta.

Apercebemo-nos  da  existência  destas  personagens no momento  em que o comboio  retoma a  viagem, após  a  paragem  de  três  anos  em  Cacuso.  Alguns  deles  tinham  constituído  família  ou tinham filhos.

Em   meu   entender   a   personagem   central   deste   romance   é   Ti   Lucas,   o   ceguinho.    E   porquê?

É  ele  que  decifra os enigmas com que se vão confrontando as personagens, quer  individualmente, quer de  modo colectivo. Interpreta o destino das pessoas. E está presente em toda a narrativa. Mas o ceguinho  tem  uma  biografia.  Nascido em 1917, era o passageiro que mais conhecimento detinha sobre a história da  linha  férrea  por  que  andava  o  comboio  e  do  espaço  cultural circundante. Aos doze anos tinha sido soldador  mecânico.  Tinha  sido  preso  em 1961,  mas  recusou falar dos poderes que tinha para ver fogo debaixo das cinzas.

Se  o leitor  pode   ter   sido  atraído pelas façanhas  do Profeta,  certamente não  terá ignorado  o facto de o próprio   Profeta   reconhecer   os   poderes    de   Ti  Lucas, pois ele via muitas águas onde as pessoas só viam terra.

As   águas   de   Ti   Lucas,  para  usar  a  linguagem  do  narrador,  eram  mais  poderosas  que   as águas do Profeta. Por exemplo:

a) Ti Lucas tinha o dom de pressentir os bons e os maus espíritos, o mau carácter, o coração bondoso, os bem-vindos   ares,  o  honesto,  o  crápula  e o vilão, que só de olhar sabia qual passageiro era portador de amuletos ou de algo para fazer mal a alguém(...);

b) Por ser uma  figura de consenso,  foi ele que  popiciou um momento de paz com suas sugestões sobre os funerais; sobre a chuva; sobre as verdadeiras causas da avaria do comboio, ao ter percebido que havia uma  gruta  onde estavam  mikuyius,  ndokis,  basimbis,  mintadis, e  mikissis,  os  espíritos  e as mágicas estatuetas.

c) Pressagiou   o   fim  da  noiva  que  teria  um  casamento  estranho.

d) Para  o  ceguinho,  a  inundação  de  Luinha  significava  que "a  água  está  entre  a  terra  e  o  fogo.  Ela tanto  pode  significar  nascimento como  morte. Ela  é muito traiçoeira e oportunista porque não tem forma própria.  Como  não  tem  casa  própria,  anda  por  aí  a  vaguear,  vaguear".  O  que  Ti  Lucas  queria  dizer
é  que  aquela  "longa  viagem  tinha  também  a companhia de certas almas de outro mundo e eram como se  fossem  passageiros que tinham embarcado em Malange, que seguiam todos os passos de  os  vivos  viandantes".

O  FOGO, é o título da  segunda parte  do livro.  Corre  nela o  segmento da história  em que  a noiva,  tendo ficado  sem  o  noivo  devido ao atraso do  comboio  e  porque não  se  realizou  a  cerimónia, desesperada embarca  sózinha  com  destino a Luanda,  deixando os parentes  em  Ndalatando.  Entretanto à noiva, que frequentava  os  cultos  da Igreja do  Bom Pastor, viria  asuceder um caso estranho. Tinha  visto uma cobra com  a  língua  de  fora,  agitando a  cabeça. No instante, uma águia de crista em coroa desceu das alturas
e  despedaçou a serpente. Quando a águia levanta voo os restos da serpente se trransformam em fogo. O fogo   extinguiu-se   quando   águia   desapareceu   do   céu.   Mas   o   fogo   voltara   para   anunciar  o  seu triunfo.

Tal  como previra o Ti Lucas, a  noiva não continuaria a viagem  com destino a Luanda,  pois  dar-se-ia  um estranho  casamento.  E  assim  aconteceu, quando  numa certa  noite  os  viajantes viram uma luz que era uma  chama  com  formato  de falo. Volterara  três  vezes  sobre a fogueira e se extinguiu imediatamente. O narrador  diz: "As moças dos óculos escuros tinham excitado o Deus do Fogo, Nzambi ia Tubia. Os falados fogos."

Da  discussão sobre o enigma da faloforia, destaca-se Ti Lucas que,  no seu entender, a  estranha luz  em forma  de  falo  simbolizava  que  a noiva, não  fazendo já parte do mundo dos vivos, se casara com o Deus do Fogo.. "É um estranho casamento, mas foi o que realmente aconteceu".

Se  as  moças dos óculos  escuros  são  o símbolo da orgia sexual, a impureza, já a noiva pela sua pureza acabou por encarnar o desejo do Deus do Fogo.

A primeira manifestação do caos no plano religioso foi a morte de quatro pessoas. E  cada um dos mortos pertencia  a  uma  Igreja,  nomeadamente  à  Igreja do  Bom Pastor, Igreja de Jesus Cristo Negro, Igreja do Profeta  Simon  Ntangu  António  ( originária de uma  região fronteiriça), Igreja de  Jesus Cristo Salvador de Angola.

No decurso da narrativa destaca-se o Profeta Simon Ntangu António.

Quem  era  o  Profeta  Simon  Ntangu  António?  A  sua  biografia  é  apresentada  na  terceira  parte  e  nela se salienta o momento em que recebe o bastão da Senhora das Boas Águas.

O  Profeta  tinha  poderes  especiais,  "fazia  os  milagres,  travar  a  chuva,  desviar  o  curso  das  águas de um  qualquer  rio, aplanar montanhas, curar doenças, reabilitar diminuídos físicos, tornar fecundos ventres estéreis,  seduzir  mulheres  e  homens,  fazer  desaperecer  processos  judiciais,  anular julgamentos, um sem fim de prodígios".

Na   terceira  parte,  A  ÁGUA,  o  Profeta  Simon  Ntangu  António  começou a evidenciar-se quando, com os poderes  do  seu  bastão,  pôs  em  marcha  o comboio, quase submerso nas águas do rio Luinha. A linha férrea  que  se  encontrava  intransitável  foi  sendo  obstruída  à  medida  que  o  comboio  seguia  marcha. Decorrido  esse  episódio  revelador,  surgiria  uma  cobra  semelhante  a  uma outra que fora vista quando
o Ti Lucas acompanhou o Profeta a um adivinho por ocasião do primeiro desaparecimento do seu bastão.

A  fama  do  Profeta  chegara  a  Luanda.  Multidões  estavam  à  sua  espera  para  verem  suas  angústias
e aflições resolvidas.

Viera  até  uma  individualidade  estrangeira  com  o  objectivo de contactar o profeta. O contacto pretendido mais  parecia  traduzir  o aprofundamento de um negócio que ambos tinham celebrado através da Internet, meio  de  comunicação  que  o Profeta começara a usar  no Palácio da Beira Alta, onde fora acolhido pelas autoridades locais.

Mas  quando  o  comboio  apita  na  estação  do  Bungo  em  Luanda,  o Profeta perde o bastão de poderes especiais.  E  não  pode  responder  às  solicitações  e  expectativas  da  multidão  ávida e que preparava a apoteose  ao longo de toda a avenida marginal. Embora o pretexto para a festa da marginal não se tivesse verificado,  ela  prossegue  transformada  em  profanação e sacrilégio, quando se deseja morte ao Profeta.

Quem  não  é  afectado  por falência é Ti Lucas. Ele é detentor de um saber que, fazendo apelo à tradição e ao  passado, parece menos vulnerável. É a expressão do sagrado, na medida em que o repositório desse saber lhe merece confiança e respeito.

A história deste romance introduz na literatura angolana um novo tema ou, dito por outras palavras, arrasta consigo  um  novo  modo  de  abordar  o  tema do tempo no imaginário angolano articulado ao sagrado e à religião,  englobando  a  teologia.  É  uma  reflexão  realizada  no  plano  da  ficção  literária que se inscreve perfeitamente  no  debate  flosófico  actual  sobre  a  falência  do  discurso hegemónico do pensamento da modernidade,  de  um  lado.  Noutro  lado,  situa-se a dinâmica das chamadas sociedades da tradição em que  a vida dos homens não é exclusivamente irreversível, os ritos e as cerimónias servem para completar
o curso regular das coisas na vida dos homens.

No  contexto das práticas  filosóficas  africanas pode  dizer-se que  Boaventura  Cardoso  engrossa  a  lista daqueles  escritores  que  dão  forma  à  tendência  que  introduz  o   elemento   narrativo.   Nisto   reside   a valorização  do  que  se  tem  chamado  Filosofia  da  Sabedoria  ( Sage  Philosophy),  através  de Ti Lucas, personagem   que   representa   a   figura  do  sábio (  sage). Ti  Lucas  é  sábio do ponto de vista filosófico, na  medida  em  que  corresponde  de  modo  consistente  às interrogações sobre a sociedade e o mundo invisível que a circunda.









































































































ARNALDO SANTOS, O FICCIONISTA QUE IMORTALIZA O TOPÓNIMO KINAXIXI

Arnaldo  Santos  é  natural de Luanda onde nasceu em 1935.  Fez os estudos primários  e secundários em Luanda.  Na  década  de 50 integrou o  chamado  grupo  da   Cultura. Na  esquematização histórico-literária angolana  diz-se  que  pertence à Geração de 50. Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre  as  quais  a  revista  Cultura,  o  Jornal  de  Angola  (da  década de 60), ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes  do  Império.  Membro  fundador  da  UEA,  é poeta e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe (contos, 1965); Tempo do Munhungo (crónicas, 1968); Poemas no Tempo (1977); Prosas (1977); Kinaxixe  e  Outras  Prosas;  Na  Mbanza  do  Miranda (  conto,  1985 );  Cesto  de  Katandu  e  outros  contos ( conto, 1986 );  Nova  Memória  da  Terra  e  dos  Homens ( poesia, 1987) A Boneca de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha das Margens é o seu último livro( romance,1999).

Passou  a infância  e a  adolescência no  bairro do  Kinaxixi, topónimo que ele consagra, conferindo-lhe um lugar  privilegiado  na  sua  produção  narrativa. Aos vinte anos de idade publicou a sua primeira colectânea de contos Quinaxixi.

Com  o  livro  de  crónicas  Tempo  do  Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70.

O  autor  de que estamos a falar, situa-se num nível singular de tratamento da linguagem. É um preciosista na  depuração  do  texto  narrativo  curto  e  de  todos  os  seus  recursos  e elementos. Daí que a sua ficção narrativa não tenha conhecido até à década de 90, variações para além do conto (Kinaxixi), crónica (Tempo do Munhungo)  e  novela  (A Boneca de Quilengues). Embora o seu espaço físico e social de eleição seja o Kinaxixi,  em  Luanda,  em  A Boneca de Quilengues, desloca essa minúcia para Benguela, realizando pela primeira vez a introdução de termos e vocábulos em língua Umbundu.

Chamo,  entretanto,  a  atenção  do  leitor  para  A  Casa Velha das Margens, o romance há muito esperado deste  autor.  Foi  em  1967  que  Mário  António,  escrevendo  sobre  a  obra  de  Arnaldo  Santos, num texto publicado  no  Boletim da Câmara Municipal de Luanda, indagava: "Para quando, Arnaldo o teu romance?". Mas  o  ficcionista do  Kinaxixi  pauta  a  sua  estratégia  criativa  por uma perspectiva gradualista,pois antes deste  livro,  escreveu  A  Boneca de Quilengues, uma história que anunciava já essa obra de fôlego.

A  Casa  Velha  das  Margens  apresenta um  peso  específico  particular,  no   contexto  da   ficção  narrativa angolana.  Não sendo rigorosamente um romance histórico, nele os elementos históricos constituem uma ossatura  deliberadamente construída para situar os factos e as  personagens.  Mas entre as personagens abundam  aquelas  que  têm  alguma  importância  no  conjunto  da  história  social  e cultural de Angola no século  XIX. É,  por  conseguinte,  visível  a pretensão de conferir alguma espessura ao quadro histórico, ao inserir  personagens  históricas.  São  elas:  o  rei  Ndunduma  do  Bié;  jornalistas,  escritores e tribunos da imprensa do século XIX como José de Fontes Pereira, Joaquim Dias Cordeiro da Matta, João Ignacio de Pinho, Mamede Sant'Ana e Palma.

Todavia,  tais  referências estão feridas de algumas imprecisões que vêm defraudar as expectativas de um leitor  angolano.  Como  compreender  por   exemplo   que  o  narrador   confunda  o  rei  Ndunduma  com  o Ndunduma  we  Lépi? Ou ainda o facto de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, o bardo de Cabiri, ser investido nas funções de chefe do concelho (p.11), da divisão de Calumbo(p.16)?

No  plano da  técnica  compositiva,  Arnaldo Santos  privilegia a  narração,  na  medida  em que a descrição, entendida  como  suspensão  do  fluir  da  história  para  se  realizarem retratos de personagens e detalhes do  cenário,  aparece  apenas  naqueles momentos em que a personagem ou o objecto são apresentados imediatamente antes de um acontecer.Tal se explica igualmente pelo facto de a estrutura do  romance  não ser  linear.  A   rarefação   de  diálogos  e  a  dispersão  dos  núcleos  dramáticos  ou  da  sua  concentração alternada,  comprovam  a  tendência  para  o   recurso  à  narração.  E  a  escassez  de   diálogos,  dá   lugar ao  monólogo  interior  indirecto que consiste  em comentários do narrador à escuta dos pensamentos das personagens.

Ora,  exactamente  por isso, e  porque  a criatura  narradora de Arnaldo Santos, tem a propensão para estar sempre  ao  corrente  do  que  vai  pelos  arcanos   psicológicos  das personagens, a descrição em A Casa Velha  das Margens  é  um expediente veicular de transições, através do qual se cobre a escassa produção de  diálogos.  Estes  aparecem  sempre  sob  forma  de descrições  e  alusões a ideias e pensamentos da personagem. É a isto a que designamos por monólogo interior indirecto.

Quando  Emídio  Mendonça,  filho  do  português  António  Mendonça (Ngana Makanda) e de Kissama, uma mãe autóctone, natural da margem norte do rio Kwanza, «de regresso do Reino» atraca em Luanda no ano de  1889,  apercebe-se  imediatamente  dos  sintomas  que  o  levariam  a  produzir  interrogações sobre a história pessoal e o passado da sua família.

Os  contactos  com  notícias  do  passado  começam  por  realizar-se em Luanda, frequentando o círculo de amigos  e  compatriotas  de  seu pai. Mas os valores que predominam neste círculo de quingundos[1], são, entre  outros,  a  avareza,  a  cobiça, a inveja, a luxúria.«(…) começara a ter consciência que, no futuro, entre ele  e  os  outros estariam sempre os jindeles dos seus pais, espíritos perturbadores a espiarem-lhe cada gesto, escutando as suas palavras, perscrutando-lhe os sentimentos.

Não  que  ele  acreditasse  que  os  jingangas  lhes  trouxessem a fala nos xinguilamentos.»(p.132) Não se sentindo  seduzido  pelo  ambiente  que  se vive em Luanda e muito menos por aqueles valores, mantem o propósito de, perante a sua condição de órfão de pai e mãe, resistir à tentação de abandonar os ideais que lhe tinham sido inculcados  na  infância e que estavam irremediavelmente associados ao território da casa onde nascera, num espaço físico e social dominado pelo rio Lucala.

A   mais   violenta  de  todas  as  peripécias  por  que  passa  Emídio   Mendonça,  é  a  primeira,  a  tentativa  de  homicídio  de  que  é  vítima na localidade de Calumbo, perpetrada por um indivíduo chamado Canvula. Tratava-se  ainda  de  uma  violência  manifestada  por  um  certo  grau  de  agressividade  no  plano  físico-corporal.  Mas  tal  não  esgota  as experiências violentas que configuram o processo de provações por que vai passando.

Ao  chegar à  terra  natal,  Emídio  Mendonça  confronta-se  com o perigo iminente de uma violência que se situa  no plano psicológico  ou espiritual: era o desaparecimento da sua família e da casa onde crescera, a Casa  Velha  na  fazenda  do  Hombo  onde  se escondiam mistérios que interessavam agora decifrar.  A salvação  contra esse perigo é a memória personificada pelo Mais-Velho Pascoal e o ambaquista Vitorino.

O  desaparecimento físico da mãe, a morte enigmática do pai, a violência  exercida pelo degredado  Santos Vaz  sobre  sua  irmã  Isabel,  foram   sendo   explicadas   pelo   Mais-Velho   Pascoal   com   referências  às respectivas  causas. A todos esses factos se associavam circunstâncias trágicas. No que diz respeiro à mãe  "agora que não  lhe encontrara  nos lugares que a memória guardara da Casa Velha, não era apenas o  seu afastamento, mas  a própria  ausência materializada, a perda da esperança de lhe encontrar"(p.131) Quanto  à morte do pai,  perante a interpelação de Emídio que admitia a probabilidade de doença, atalhara: (…) a doença nunca vem sozinha(…) Musunga kota, umbanda ndenge.(105)

A fatalidade  tinha sido ditada contra  António Mendonça, pai de Emídio, a partir da data em que decidira ser depositário  das  mucandas  sobre  conflitos  e  reivindicações  que  eclodiam  na  região  de  Massangano, Dondo, Caculo  e  arredores no século XIX, mas remontando aos tempos da ocupação holandesa. Chegou em  caçoada  a  ser  chamado  por  compatriotas  seus, "pai dos pretos". Isto testemunhava-o o Mais-Velho Pascoal.  Datava ainda  dessa época  a sua  decisão  de  indagar os "costumes ancestrais dos quissamas
e dos seus ódios e conflitos contra os colonos"(p.119).

Perante  as  revelações  do  Mais-Velho  Pascoal,  a  Emídio  começavam  a  interessar  essas   cartas  dos amabaquistas  depositadas   por  seu  pai  num  «misterioso  livro  encadernado  de  couro", a "carteira das mucandas ambaquistas» (p.120).

Havia  cinco   tipos   de   cartas  ambaquistas[2]:   as  mucanda  ua   jindunda,   que   eram   mucandas  das queixas;  as  mucandas  ua  kuhúnda,  mucandas  de  formar  juízos; mucandas ua kusenga que reunia "os casos do abandono dos maridos e restituição de alembamento"; as mucandas ua mixangu ; as mucandas
ia rihamba
que imitavam o estilo "dos antigos pregadores jesuítas, empoladas de ditames  da Bíblia e das leis, ou inspiradas na vida"(p.123). A leitura destas cartas eram feitas na Casa Velha onde nascera Emídio, em  sessões  públicas  a  que  assistiam  os  libertos, pois "a fama dessas sessões de leitura, que tinham virado tribunais de milongas, já se estendera, e era demasiado tarde"(p.124).

Para  Emídio Mendonça, o incêndio que devorara a Casa Velha começava a tomar forma e a ser associada
à  morte  do  pai.  Mas  o   incêndio  que  visava  a  redução  das  mucandas  dos  ambaquistas a cinzas e a liquidação de António Mendonça, o Ngana Makanda, era o que pretendiam todos os colonos que nisto viam
a única a forma de silenciar os incómodos das antigas reivindicações autóctones contidas nas mucandas. Quando  no  Dondo alguém  confirmava a conveniência dos incêndios dizendo que eles eram "necessários para  fastar  a  bicharada  malsã”(…) (p.126)  e  acrescentando  que  o "fogo também cauteriza e purifica…", compreendeu  finalmente o  terreno ardiloso que pisava. Emídio Mendonça concluía que era apenas um "órfão pardo das Margens " com todo o conjunto de consequências e implicações.

Sobre  o drama de ser "órfão pardo"  conheciam-se  muitas anedotas. Emídio Mendonça ouvira contar uma delas,  por  ocasião  da  sua  passagem  por  Luanda.  Dizia-se que " era uma sorte mal-fadada essa a dos pardos órfãos que inevitavelmente atraía quilombelombes, quingundos, e outras aves abutres, disfarçados de  curadores  de  órfãos,  tutores  dos  conselhos  de  família,credores, mucunjis das cerimónias de tâmbi(…)"(p.126-127).

O  desfecho  de  A  Casa  Velha  das  Margens,  que  é  no  fundo   a   biografia  de  Emídio   Mendonça   com digressões  pela  História  dos  lugares  e  pinceladas  de  anedotas  do  meio  social  de localidades como e  Dondo  e  respectivo  interior,  decorre  em  Luanda  no  bairro  do  Kinaxixi  como  um  prolongamento  da interpretação das mucandas dos ambaquistas.

A Carta de Kijinganu trazida das margens do rio Lucala para a Casa Azul do Kinaxixi, onde se fixara, fugindo
a fúria dos novos colonos que ocupavam as Margens, esconde os mesmos mistérios que os exercícios de interpretação realizados por seu pai não tinham alcançado.

Com efeito, a Carta de Kijinganu e os efeitos da sua semântica, o poeta Kuxixima kia Kuxixima, Isabel, irmã de Emídio,  são  personagens  que povoam  o final do romance e perturbam Emídio Mendonça. Todas elas têm  em  comum  espíritos,  visões,  vigílias  e  prodigiosas  ocorrências  associadas,  de  uma  ou de outra maneira, a reivindicações e heranças da terra.

A  subjacente  cosmovisão  do  autor  assenta   no   ponto   de   vista   do   narrador.  E   concretiza-se  numa reapropriação  da  herança,  da  História  do  lugar, da terra e sua interpretação. A Emídio Mendonça impunha-se  a  necessidade  de   enterrar  os  espíritos  dos  antepassados. O que sua mãe não fizera.Tal fundamenta  a  deambulação  destes  espíritos  num  lugar  como o Kinaxixi também povoado por kiandas.

Só  o  regresso  e  homenagem  aos  quinguris  de  que  falava  Kissama,  sua  mãe,  poderia salvar Emídio Mendonça  de  uma  catástrofe  existencial. Por isso, disse a Dino, seu filho:" Não posso esperar mais aqui em  Luanda  que um dia me venham agarrar…(…) Vou nas Margens, nos  caminhos de Guengue   O Velho Muhongo  vai  explicar  e  adivinhar todos os casos que se passaram…"(p.354) Arnaldo Santos é natural de Luanda  onde  nasceu  em  1935.  Fez  os  estudos  primários e secundários em Luanda. Na década de 50 integrou  o  chamado grupo da Cultura. Na esquematização histórico-literária angolana diz-se que pertence
à Geração de 50. Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o  Jornal  de  Angola  (da  década  de  60),  ABC,  Mensagem  da  Casa dos Estudantes do Império. Membro fundador da UEA, é poeta e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe (contos, 1965); Tempo do Munhungo  (crónicas,  1968);  Poemas  no  Tempo  (1977);  Prosas  (1977);  Kinaxixe  e  Outras  Prosas;  Na Mbanza do Miranda ( conto, 1985); Cesto de Katandu e outros contos ( conto,1986); Nova Memória da Terra e  dos  Homens ( poesia,1987) A Boneca de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha das Margens é o seu último livro ( romance,1999).

Passou  a  infância  e  a  adolescência  no bairro  do  Kinaxixi,  topónimo  que ele  consagra,  conferindo-lhe um  lugar  privilegiado  na  sua  produção  narrativa.   Aos  vinte  anos  de   idade   publicou  a   sua  primeira colectânea de contos Quinaxixi.

Com  o  livro  de  crónicas  Tempo  do  Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70.

O  autor  de que estamos a falar, situa-se num nível singular de tratamento da linguagem. É um preciosista na  depuração  do  texto  narrativo  curto  e  de  todos  os  seus  recursos  e elementos. Daí que a sua ficção narrativa não tenha conhecido até à década de 90, variações para além do conto (Kinaxixi), crónica (Tempo do Munhungo) e novela (A Boneca de Quilengues).

Embora  o seu espaço físico e  social de eleição  seja o Kinaxixi, em Luanda, em A Boneca de Quilengues, desloca essa minúcia para Benguela, realizando pela primeira vez a introdução de termos e vocábulos em língua Umbundu.

Chamo,   entretanto,   a   atenção   do   leitor   para   A   Casa   Velha   das   Margens,   o   romance  há muito esperado  deste  autor.  Foi  em 1967 que Mário António, escrevendo sobre a obra de Arnaldo Santos, num texto  publicado  no   Boletim  da  Câmara  Municipal  de  Luanda,  indagava:  "Para  quando,  Arnaldo  o  teu romance?".    Mas    o    ficcionista   do   Kinaxixi   pauta   a   sua   estratégia   criativa    por   uma perspectiva gradualista,  pois   antes   deste   livro,  escreveu  A  Boneca  de Quilengues, uma história que anunciava já essa obra de fôlego.

A  Casa  Velha  das  Margens  apresenta  um  peso  específico  particular,  no  contexto  da   ficção  narrativa angolana. Não sendo rigorosamente um romance histórico, nele os elementos históricos constituem uma ossatura  deliberadamente  construída para situar os factos e as personagens. Mas entre as personagens abundam  aquelas  que  têm  alguma  importância  no  conjunto  da  história  social e cultural de Angola no século  XIX.  É,  por  conseguinte, visível a pretensão de conferir alguma espessura ao quadro histórico, ao inserir  personagens  históricas.  São  elas:   o  rei  Ndunduma  do Bié; jornalistas, escritores e tribunos da imprensa  do  século  XIX  como José de  Fontes Pereira, Joaquim Dias Cordeiro da Matta, João Ignacio de Pinho, Mamede Sant'Ana e Palma.

Todavia,  tais referências estão feridas de algumas imprecisões que vêm defraudar as expectativas de um leitor  angolano.  Como  compreender  por  exemplo  que  o  narrador  confunda  o  rei  Ndunduma   com   o Ndunduma  we Lépi? Ou ainda o facto de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, o bardo de Cabiri, ser investido nas funções de chefe do concelho (p.11), da divisão de Calumbo(p.16)?

No  plano  da técnica compositiva, Arnaldo  Santos privilegia a  narração,  na  medida  em  que a descrição, entendida  como  suspensão do fluir da história para se realizarem retratos de personagens e detalhes do cenário,  aparece  apenas  naqueles   momentos  em  que  a  personagem ou o objecto são apresentados imediatamente antes de um acontecer.Tal se explica igualmente pelo facto de a estrutura do romance não ser  linear.  A  rarefação  de  diálogos  e  a  dispersão  dos  núcleos  dramáticos  ou  da  sua   concentração alternada,  comprovam  a  tendência  para  o   recurso  à  narração.  E  a escassez de diálogos, dá lugar ao monólogo  interior  indirecto  que  consiste  em  comentários  do  narrador  à escuta dos pensamentos das personagens.

Ora,  exactamente  por isso,  e  porque a criatura narradora de Arnaldo Santos, tem a propensão para estar sempre  ao  corrente  do  que    vai  pelos  arcanos  psicológicos das personagens, a descrição em A Casa Velha  das  Margens é um expediente veicular de transições, através do qual se cobre a escassa produção de  diálogos.  Estes  aparecem  sempre  sob  forma  de descrições e  alusões a ideias e pensamentos da personagem. É a isto a que designamos por monólogo interior indirecto.

Quando  Emídio  Mendonça,  filho  do  português  António Mendonça (Ngana Makanda) e de Kissama, uma mãe  autóctone,    natural  da  margem norte  do rio Kwanza, «de regresso do Reino» atraca em Luanda no ano  de  1889,  apercebe-se  imediatamente  dos  sintomas  que o levariam a produzir interrogações sobre a história pessoal e o passado da sua família.

Os  contactos  com  notícias  do  passado começam por realizar-se  em  Luanda, frequentando o círculo de amigos  e  compatriotas  de seu pai. Mas os valores que predominam neste círculo de quingundos[3], são, entre  outros,   a  avareza,  a  cobiça,  a  inveja,  a  luxúria.«(…)  começara  a  ter  consciência  que, no futuro, entre  ele  e  os  outros  estariam  sempre  os  jindeles dos seus pais, espíritos perturbadores a espiarem-lhe  cada  gesto,  escutando  as suas palavras, perscrutando-lhe os sentimentos. Não que ele acreditasse que os jingangas lhes trouxessem a fala nos xinguilamentos.»(p.132)

Não  se  sentindo  seduzido  pelo  ambiente  que  se  vive  em Luanda e muito menos por aqueles valores, mantem  o  propósito  de,  perante  a sua condição de órfão de pai e mãe, resistir à tentação de abandonar os  ideais  que  lhe    tinham  sido inculcados na infância e que estavam irremediavelmente associados ao território da casa onde nascera, num espaço físico e social dominado pelo rio Lucala.

A  mais  violenta  de  todas  as  peripécias  por  que  passa  Emídio  Mendonça,  é  a primeira, a tentativa de homicídio  de  que  é  vítima   na  localidade  de  Calumbo,  perpetrada por um indivíduo chamado Canvula. Tratava-se  ainda  de  uma  violência  manifestada  por  um  certo  grau  de  agressividade  no  plano físico-corporal.  Mas  tal  não  esgota as experiências violentas que configuram o processo de provações por que vai passando.

Ao  chegar  à  terra  natal, Emídio   Mendonça  confronta-se com o perigo iminente de uma violência que se situa  no plano psicológico ou espiritual: era o desaparecimento da sua família e da casa onde crescera, a  Casa  Velha  na  fazenda  do  Hombo  onde  se  escondiam  mistérios  que  interessavam agora decifrar. A salvação  contra esse perigo é a memória personificada pelo Mais-Velho Pascoal e o ambaquista Vitorino.

O  desaparecimento  físico  da mãe,  a  morte  enigmática  do  pai,  a   violência   exercida   pelo  degredado Santos  Vaz  sobre  sua  irmã  Isabel, foram sendo explicadas pelo Mais-Velho Pascoal com referências às respectivas  causas.  A  todos  esses  factos  se associavam circunstâncias trágicas. No que diz respeiro à mãe "agora que não lhe encontrara nos lugares que a memória guardara da Casa Velha, não  era  apenas o  seu  afastamento, mas a própria ausência materializada, a perda da esperança de lhe encontrar"(p.131) Quanto à morte do pai, perante a interpelação de Emídio que admitia a probabilidade de doença,  atalhara: (…) a doença nunca vem sozinha(…) Musunga kota, umbanda ndenge.(105)

A  fatalidade tinha sido ditada contra António Mendonça, pai de Emídio, a partir da data em que decidira ser depositário  das  mucandas  sobre  conflitos  e  reivindicações  que  eclodiam  na  região  de Massangano, Dondo, Caculo  e arredores no século XIX, mas remontando aos tempos da ocupação holandesa. Chegou em  caçoada  a  ser  chamado por  compatriotas  seus, "pai dos pretos". Isto testemunhava-o o Mais-Velho Pascoal. Datava ainda dessa  época a sua decisão de indagar os "costumes ancestrais dos quissamas e dos seus ódios e conflitos contra os colonos"(p.119).

Perante  as  revelações  do  Mais-Velho  Pascoal,  a  Emídio  começavam  a  interessar  essas  cartas  dos amabaquistas   depositadas   por  seu   pai  num «misterioso  livro encadernado de couro", a "carteira  das mucandas  ambaquistas»  (p.120).

Havia  cinco  tipos  de  cartas ambaquistas[4]: as mucanda ua jindunda, que eram mucandas das queixas; as  mucandas  ua  kuhúnda,  mucandas  de formar juízos; mucandas ua kusenga que reunia "os casos do abandono  dos  maridos  e  restituição  de  alembamento";  as  mucandas  ua  mixangu ;  as  mucandas  ia rihamba  que  imitavam  o  estilo "dos  antigos pregadores jesuítas, empoladas de ditames da Bíblia e das leis,  ou  inspiradas  na  vida" (p.123).  A  leitura  destas  cartas  eram  feitas  na  Casa  Velha onde nascera Emídio,  em  sessões  públicas  a  que assistiam os libertos, pois "a fama dessas sessões de leitura, que tinham virado tribunais de milongas, já se estendera, e era demasiado tarde"(p.124).

Para Emídio Mendonça, o incêndio que  devorara a Casa Velha começava a tomar forma e a ser associada à  morte  do  pai.  Mas  o  incêndio  que  visava  a  redução  das  mucandas  dos  ambaquistas  a  cinzas e a liquidação de António Mendonça, o Ngana Makanda, era o que pretendiam todos os colonos que nisto viam a  única a forma de silenciar os incómodos das antigas reivindicações autóctones contidas nas mucandas. Quando  no  Dondo alguém confirmava  a conveniência dos incêndios dizendo que eles eram "necessários para  fastar  a  bicharada  malsã”(…)(p.126)  e  acrescentando  que  o  "fogo também cauteriza e purifica…", compreendeu  finalmente  o terreno ardiloso  que  pisava.  Emídio  Mendonça  concluía  que era apenas um "órfão pardo das Margens " com todo o conjunto de consequências e implicações.

Sobre  o  drama  de ser "órfão pardo" conheciam-se muitas anedotas. Emídio Mendonça ouvira contar uma delas,  por  ocasião  da  sua  passagem  por  Luanda.  Dizia-se que " era uma sorte mal-fadada essa a dos pardos órfãos que inevitavelmente atraía quilombelombes, quingundos, e outras aves abutres, disfarçados de  curadores  de  órfãos,  tutores  dos  conselhos  de  família, credores, mucunjis das cerimónias de tâmbi(…)"(p.126-127).

O desfecho de A Casa Velha das Margens, que é no fundo a biografia de Emídio Mendonça com digressões pela  História  dos  lugares  e  pinceladas de  anedotas  do  meio  social  de  localidades  como  e  Dondo   e respectivo interior, decorre em Luanda no bairro do Kinaxixi como um prolongamento da interpretação das mucandas dos ambaquistas.

A Carta de Kijinganu trazida das margens do rio Lucala para a Casa Azul do Kinaxixi, onde se fixara, fugindo a fúria dos novos colonos que ocupavam as Margens, esconde os mesmos mistérios que os exercícios de interpretação realizados por seu pai não tinham alcançado.

Com efeito, a Carta de Kijinganu e os efeitos da sua semântica, o poeta Kuxixima kia Kuxixima, Isabel, irmã de  Emídio,  são  personagens  que povoam o final do romance e perturbam Emídio Mendonça. Todas elas têm  em  comum  espíritos,  visões,  vigílias  e  prodigiosas  ocorrências  associadas,  de  uma  ou de outra maneira, a reivindicações e heranças da terra.

A  subjacente   cosmovisão  do   autor   assenta   no   ponto   de  vista  do  narrador.   E  concretiza-se  numa reapropriação  da  herança, da História do lugar, da terra e sua interpretação. A Emídio Mendonça impunha-se a necessidade de enterrar os espíritos dos antepassados. O que sua mãe não fizera. Tal  fundamenta a deambulação destes espíritos num lugar como o Kinaxixi também povoado por kiandas.

Só  o  regresso  e  homenagem  aos  quinguris  de  que  falava  Kissama,  sua  mãe,  poderia salvar  Emídio Mendonça  de  uma  catástrofe  existencial. Por isso, disse a Dino, seu filho:" Não posso  esperar mais aqui em  Luanda  que  um dia me venham agarrar…(…) Vou nas Margens, nos caminhos de Guengue…O Velho Muhongo  vai  explicar e adivinhar todos os casos  que se passaram…"(p.354) Arnaldo  Santos é  natural de Luanda  onde  nasceu em  1935. Fez os estudos   primários  e  secundários  em  Luanda. Na década de 50 integrou o chamado grupo da Cultura. Na esquematização histórico-literária angolana diz-se que pertence à Geração de 50. Colaborou em  várias publicações periódicas luandenses entre as quais a revista Cultura, o Jornal  de  Angola  (da  década  de  60),  ABC,  Mensagem  da  Casa  dos  Estudantes  do  Império.  Membro fundador da UEA, é poeta e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe (contos, 1965); Tempo do Munhungo  (crónicas,  1968);  Poemas  no  Tempo (1977);  Prosas  (1977);  Kinaxixe  e   Outras   Prosas;  Na Mbanza  do  Miranda  ( conto,  1985);  Cesto  de  Katandu  e  outros   contos ( conto,1986); Nova  Memória da Terra
e dos Homens
( poesia,1987) A Boneca de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha  das Margens é o seu último livro (romance,1999).

Passou  a  infância  e  a  adolescência  no  bairro  do  Kinaxixi,  topónimo  que  ele  consagra, conferindo-lhe um  lugar  privilegiado  na  sua  produção  narrativa.  Aos  vinte  anos  de   idade   publicou   a   sua   primeira colectânea de contos Quinaxixi.

Com  o livro  de crónicas  Tempo do  Munhungo,  arrebatou em  1968 o  Prémio Mota  Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70.

O autor de que estamos a falar,  situa-se num nível singular  de tratamento da linguagem.  É um preciosista na  depuração do texto  narrativo curto  e de  todos  os  seus  recursos  e  elementos.  Daí  que  a  sua ficção narrativa  não  tenha conhecido até à década de 90, variações para além do conto (Kinaxixi), crónica (Tempo do Munhungo) e novela (A Boneca de Quilengues).

Embora o  seu espaço  físico e  social de  eleição seja  o  Kinaxixi, em Luanda, em A Boneca de Quilengues, desloca  essa  minúcia para Benguela, realizando pela primeira vez a introdução de termos e vocábulos em língua Umbundu.

Chamo,  entretanto,  a  atenção  do  leitor  para  A  Casa  Velha  das Margens, o romance há muito esperado deste  autor.  Foi  em  1967  que  Mário  António,  escrevendo  sobre  a  obra  de  Arnaldo  Santos,  num  texto publicado  no  Boletim  da  Câmara Municipal  de Luanda, indagava: "Para quando, Arnaldo o teu romance?". Mas o ficcionista do Kinaxixi pauta a sua estratégia criativa por uma perspectiva gradualista,pois antes deste livro, escreveu A Boneca de Quilengues, uma história que anunciava já essa obra de fôlego.

A  Casa  Velha  das  Margens  apresenta um  peso  específico  particular,  no   contexto   da   ficção   narrativa angolana.  Não  sendo  rigorosamente  um  romance  histórico,  nele  os  elementos   históricos  constituem uma  ossatura  deliberadamente  construída  para   situar   os   factos   e   as   personagens.   Mas   entre  as personagens  abundam  aquelas  que  têm  alguma  importância  no  conjunto  da  história  social  e cultural de  Angola  no século XIX. É, por conseguinte, visível  a  pretensão  de conferir alguma espessura ao quadro histórico,  ao  inserir  personagens  históricas.  São  elas:  o  rei  Ndunduma  do  Bié;  jornalistas,   escritores e  tribunos  da imprensa do século XIX como José de Fontes Pereira, Joaquim Dias Cordeiro da Matta, João Ignacio de Pinho, Mamede Sant'Ana e Palma.

Todavia,  tais  referências estão feridas de  algumas imprecisões  que vêm defraudar as expectativas de um leitor  angolano.  Como  compreender  por  exemplo  que  o  narrador   confunda  o   rei   Ndunduma   com   o Ndunduma  we  Lépi?  Ou  ainda o facto de Joaquim Dias Cordeiro da Matta, o bardo de Cabiri, ser investido nas funções de chefe do concelho (p.11), da divisão de Calumbo(p.16)?

No  plano  da  técnica  compositiva,  Arnaldo  Santos  privilegia  a  narração,  na medida em que a descrição, entendida  como  suspensão do fluir  da história para  se realizarem retratos  de personagens e detalhes do cenário,  aparece  apenas naqueles  momentos  em  que  a  personagem  ou  o  objecto  são  apresentados imediatamente antes de um acontecer. Tal  se explica  igualmente pelo facto de a estrutura do romance não ser   linear.   A   rarefação  de  diálogos  e  a  dispersão  dos  núcleos  dramáticos  ou  da  sua  concentração alternada,   comprovam   a   tendência   para  o  recurso  à  narração.  E  a  escassez  de  diálogos,   dá  lugar ao  monólogo  interior  indirecto  que  consiste  em comentários do narrador à escuta dos pensamentos das personagens.

Ora,  exactamente  por  isso, e  porque a  criatura  narradora de Arnaldo  Santos, tem a propensão para estar sempre ao corrente do que vai pelos arcanos psicológicos das personagens, a descrição em A Casa Velha das  Margens  é  um  expediente  veicular  de  transições,  através  do  qual  se cobre a escassa produção de diálogos. Estes aparecem sempre sob forma de descrições e alusões a ideias e pensamentos da personagem. É a isto a que designamos por monólogo interior indirecto.

Quando Emídio Mendonça, filho do português António Mendonça (Ngana Makanda) e de Kissama, uma mãe autóctone,  natural da  margem norte  do rio  Kwanza, «de  regresso do  Reino» atraca em Luanda no ano de 1889,  apercebe-se  imediatamente  dos  sintomas  que o levariam a produzir interrogações sobre
a história pessoal  e  o  passado  da  sua família. Os contactos com notícias do passado começam por realizar-se em Luanda,  frequentando  o  círculo  de  amigos  e  compatriotas  de  seu  pai. Mas os valores que predominam neste círculo de quingundos[5], são, entre outros, a avareza, a cobiça, a inveja, a luxúria.«(…) começara a ter consciência  que,  no  futuro,  entre  ele  e  os  outros  estariam  sempre  os jindeles dos seus pais, espíritos perturbadores  a  espiarem-lhe  cada  gesto, escutando as suas palavras, perscrutando-lhe os sentimentos. Não que ele acreditasse que os jingangas lhes trouxessem a fala nos xinguilamentos.»(p.132)

Não  se  sentindo  seduzido  pelo  ambiente  que  se  vive  em  Luanda  e  muito menos por aqueles valores, mantem  o  propósito de, perante a sua condição de órfão de pai e mãe, resistir à tentação de abandonar os ideais que lhe tinham sido inculcados na infância e que estavam irremediavelmente associados ao território da casa onde nascera, num espaço físico e social dominado pelo rio Lucala.

A  mais  violenta  de  todas  as  peripécias  por  que  passa  Emídio  Mendonça,  é  a  primeira,  a  tentativa de homicídio  de  que  é  vítima  na  localidade  de  Calumbo,  perpetrada  por  um  indivíduo  chamado Canvula. Tratava-se ainda de uma violência manifestada por um certo grau de agressividade no plano físico-corporal. Mas  tal  não  esgota  as  experiências  violentas  que  configuram  o  processo  de  provações   por   que   vai passando.

Ao chegar à terra natal, Emídio Mendonça confronta-se com o perigo iminente de uma violência que se situa no  plano  psicológico ou  espiritual: era o desaparecimento da sua família e da casa onde crescera, a Casa Velha  na  fazenda  do  Hombo onde  se escondiam mistérios que interessavam  agora  decifrar.  A salvação contra esse perigo é a memória personificada pelo Mais-Velho Pascoal e o ambaquista Vitorino.

O  desaparecimento  físico  da  mãe,  a morte enigmática do pai, a violência exercida pelo degredado Santos Vaz sobre sua irmã Isabel, foram sendo explicadas pelo Mais-Velho Pascoal com referências às respectivas causas. A todos esses factos se associavam circunstâncias trágicas. No que diz respeiro à mãe "agora que não  lhe  encontrara  nos  lugares  que a  memória   guardara   da   Casa   Velha,   não   era   apenas
o   seu afastamento,  mas  a própria ausência materializada, a perda da esperança de lhe encontrar"(p.131) Quanto à  morte  do  pai,  perante  a  interpelação  de Emídio que admitia a probabilidade de doença, atalhara: (…) a doença nunca vem sozinha(…) Musunga kota, umbanda ndenge.(105)

A  fatalidade  tinha  sido  ditada contra António Mendonça, pai de Emídio, a partir da data em que decidira ser depositário  das  mucandas  sobre  conflitos  e  reivindicações  que  eclodiam  na  região   de   Massangano, Dondo,  Caculo  e  arredores  no século XIX, mas remontando aos tempos da ocupação holandesa. Chegou em  caçoada  a  ser  chamado  por  compatriotas seus, "pai  dos  pretos".  Isto testemunhava-o o Mais-Velho Pascoal.  Datava  ainda dessa época  a sua  decisão de indagar os "costumes ancestrais dos quissamas e dos seus ódios e conflitos contra os colonos"(p.119).

Perante  as  revelações  do  Mais-Velho  Pascoal,  a   Emídio   começavam  a   interessar  essas  cartas  dos amabaquistas  depositadas  por  seu  pai  num « misterioso  livro  encadernado  de  couro",  a " carteira  das mucandas ambaquistas» (p.120).

Havia  cinco tipos de cartas  ambaquistas[6]: as mucanda ua jindunda, que eram mucandas das queixas; as mucandas  ua  kuhúnda,  mucandas  de  formar  juízos;  mucandas  ua  kusenga  que  reunia " os  casos  do abandono  dos  maridos  e  restituição  de  alembamento";  as  mucandas   ua   mixangu;   as   mucandas  ia rihamba  que  imitavam  o  estilo "dos  antigos  pregadores  jesuítas,  empoladas de ditames da Bíblia e das leis,  ou  inspiradas na vida"(p.123). A leitura destas cartas eram feitas na Casa Velha onde nascera Emídio, em  sessões  públicas  a  que  assistiam  os  libertos,  pois "a  fama dessas sessões de leitura, que tinham virado tribunais de milongas, já se estendera, e era demasiado tarde"(p.124).

Para Emídio Mendonça, o incêndio que devorara a Casa Velha começava a tomar forma e a ser associada
à morte  do pai. Mas o incêndio que visava a redução das mucandas dos ambaquistas a cinzas e a liquidação de  António  Mendonça,  o Ngana  Makanda, era o que pretendiam todos os colonos que nisto viam
a única a forma de silenciar os incómodos das  antigas  reivindicações  autóctones contidas  nas mucandas. Quando no Dondo alguém confirmava a conveniência dos incêndios dizendo que eles eram "necessários para fastar a  bicharada  malsã”(…) (p.126)  e  acrescentando que o "fogo também cauteriza e purifica…", compreendeu finalmente  o  terreno  ardiloso  que  pisava. Emídio Mendonça concluía que era apenas um "órfão pardo das Margens " com todo o conjunto de consequências e implicações.

Sobre  o  drama  de  ser  "órfão pardo" conheciam-se muitas anedotas. Emídio Mendonça ouvira contar uma delas,  por  ocasião  da  sua  passagem  por Luanda.  Dizia-se  que "era  uma  sorte  mal-fadada essa a dos pardos  órfãos  que inevitavelmente atraía quilombelombes, quingundos, e outras aves abutres, disfarçados de curadores de órfãos, tutores dos  conselhos  de  família, credores,  mucunjis  das   cerimónias  de  tâmbi(…)"(p.126-127).

O desfecho de A Casa Velha das Margens, que é no fundo a biografia de Emídio Mendonça com digressões pela  História  dos  lugares e pinceladas  de  anedotas  do  meio  social  de   localidades  como  e  Dondo e respectivo  interior, decorre em Luanda no bairro do  Kinaxixi  como  um prolongamento da interpretação das mucandas dos ambaquistas.

A Carta  de  Kijinganu  trazida  das  margens  do  rio  Lucala  para   a  Casa  Azul  do  Kinaxixi,  onde se fixara, fugindo
a  fúria  dos  novos  colonos  que  ocupavam  as  Margens,  esconde  os  mesmos mistérios que os exercícios de interpretação realizados por seu pai não tinham alcançado.

Com  efeito, a Carta de Kijinganu e os efeitos da sua  semântica, o poeta Kuxixima kia Kuxixima, Isabel, irmã de Emídio, são personagens que povoam o final do romance e perturbam Emídio Mendonça. odas elas têm em  comum  espíritos, visões, vigílias e prodigiosas ocorrências  associadas,  de  uma ou de outra maneira, a reivindicações e heranças da terra.

A   subjacente   cosmovisão   do   autor   assenta   no   ponto   de   vista   do   narrador.  E concretiza-se numa reapropriação  da herança, da História do   lugar, da terra e sua interpretação. A Emídio Mendonça impunha-se  a necessidade  de enterrar  os espíritos dos antepassados. O que sua mãe não fizera.Tal fundamenta a deambulação destes espíritos num lugar como o Kinaxixi também povoado por kiandas.

Só  o  regresso  e  homenagem  aos  quinguris  de  que  falava  Kissama,  sua  mãe,  poderia  salvar Emídio Mendonça  de  uma  catástrofe  existencial.  Por  isso,  disse  a  Dino,  seu  filho:"  Não  posso  esperar  mais aqui  em  Luanda  que  um  dia  me  venham  agarrar…(…)  Vou nas Margens, nos caminhos de Guengue…O Velho Muhongo vai explicar e adivinhar todos os casos que se passaram…"(p.354)

Arnaldo Santos  é  natural de  Luanda onde  nasceu em  1935.  Fez os  estudos primários e secundários em Luanda.  Na  década  de  50  integrou  o  chamado  grupo  da  Cultura. Na  esquematização histórico-literária angolana  diz-se  que  pertence  à  Geração de 50. Colaborou em várias publicações periódicas luandenses entre  as  quais  a  revista  Cultura,  o  Jornal  de  Angola (da  década  de  60),  ABC, Mensagem da Casa dos Estudantes  do  Império.  Membro  fundador  da  UEA,  é  poeta  e ficcionista. Publicou Fuga (1960, poemas); Quinaxixe  (contos, 1965); Tempo do Munhungo (crónicas, 1968); Poemas no Tempo (1977); Prosas  (1977); Kinaxixe  e  Outras  Prosas;  Na  Mbanza  do   Miranda  (conto,  1985);   Cesto  de   Katandu  e   outros  contos ( conto, 1986);  Nova  Memória  da  Terra  e  dos  Homens ( poesia, 1987)  A  Boneca  de Quilengues (novela, 1991). A Casa Velha das Margens é o seu último livro ( romance,1999).

Passou a  infância e a adolescência  no  bairro do  Kinaxixi, topónimo  que ele  consagra, conferindo-lhe  um lugar privilegiado  na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade publicou a sua primeira colectânea de contos Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos atribuídos em Luanda, na década de 60 e 70.

A GERAÇÃO LITERÁRIA DE 80 E SEUS FICCIONISTAS

Muito  me  agradaria  saber  que  o   meu   leitor   frequenta   com   assiduidade  as   páginas   luzidias  desta publicação.  E  não  me importaria, antes pelo contrário reforçaria a minha expectativa, se viesse a chegar ao meu  conhecimento o facto de,  mesmo sem ser  passageiro  da  companhia aérea angolana, a pessoa que me está a ler cultiva alguma curiosidade e avidez por informações respeitantes à literatura angolana.

O    que    venho    hoje    propor    à    leitura,    é    uma    pequena    panorâmica    sobre    a    ficção    literária angolana, focalizando com  alguma particularidade a geração de 80, a que eu próprio pertenço, vista através dos seus nomes mais representativos.

Quando  falo   de  ficção   literária  angolana,  estou  a   pensar   num   conjunto    de    textos    literários    que apresentam   uma   identidade   narrativa   reunindo,   por    conseguinte,    determinadas    características    e qualidades.  Tais  textos  são,  de  uma  maneira  geral,  narrativas  ou  narrações de factos reais ou fictícios, vividos  ou  imaginários  que  representam  o acervo  daquilo a que poderíamos designar por ficção narrativa angolana.  É  um  elenco  que comporta uma  diversidade de formas de discurso em prosa como romances, novelas e contos.

O  romance,  tal  como  é  praticado  pelos  autores  da  geração  de 80, a sua caracterização, os temas mais recorrentes  e  as  inovações  que  reflecte  no  plano  formal  e  da  linguagem,  vai  ser o objecto desta breve panorâmica.

Mas  vejamos  em  primeiro  lugar  o  que,  do  ponto de vista histórico, é a narrativa e o romance em Angola.

Ora,  como  é  sabido  o  romance  é  introduzido  nas  literaturas  africanas  com  a  implantação  do sistema colonial  no  século  XIX.  Uma  das  mais  evidentes manifestações da sua existência no espaço angolano é a  proliferação da  literatura colonial. Os  primeiros  textos  romanescos  e  narrativos  de  fôlego  escritos por naturais  de Angola são criações  de escritores da geração  de 1890. Datam dos fins do século XIX. Trata-se de  obras  de Pedro Félix Machado: Scenas  de África e o O Filho Adulterino; e de Jooaquim Dias Cordeiro da Matta:  O  Loandense  da  alta  e  da  baixa  esfera,  Repositório  de  Coisas  Angolenses (crónica) e O Doutor Gaudêncio (romance).

À  semelhança do que  se verifica em  outros espaços  coloniais,  também  em  Angola emerge um romance colonial  de  pendor  exótico  com  fundamentos  em  mistificações  e  doutrinas  racialistas.  Ele  tipifica   um conjunto  de  textos  motivados  por  uma  pretensa “missão  civilizadora”  que   é   atribuída   a  personagens racialmente  brancas,  relegando-se  as  personagens  de  raça  negra  a  papeis e funções secundárias, de vítimas  e  pacientes nas histórias que se constroem e em que avulta a paisagem física,social e humana de Angola.  É  a  chamada  literatura ultramarina,  designação  que  é substituída  na década de 60 por literatura colonial.

A  referida  produção  literária ,  começa  a  desenvolver-se  em  Angola,  a  partir  dos  anos  20 deste século, através  dos  concursos  de  literatura colonial portuguesa,promovidos pela Agência Geral do Ultramar e dos estudos sobre Angola numa perspectiva etnográfica, cobrindo as línguas e o folclore.

No parágrafo  único do artigo 1º da Portaria nº6.119, que em 1926 consagra a abertura daqueles concursos, lê-se: “será sempre preferida a literatura na forma de romance, novela narrativa, relato de aventuras,etc. que melhor contribua para despertar, sobretudo na mocidade, o gosto pelas causas coloniais.”

Os primeiros prémios  de literatura  colonial foram  atribuídos a dois  autores portugueses,  nomeadamente, Gastão de Sousa Dias com África Portentosa e Brito Camacho com a obra Pretos e Brancos. Um outro autor de assídua participação nos referidos concursos e cuja pertença das suas obras pode dar lugar a fecundos debates sobre a estética da narrativa angolana, é Castro Soromenho. Em 1939, vai a concurso com um livro de contos intitulado Nhari.

A progressiva expansão do romance, enquanto género do discurso em prosa, deve-se ao florescimento dos jornais nos fins do século XIX e princípios deste. De igual modo à institucionalização do ensino liceal de que sairiam  leitores preparados  e potenciais  escritores. Daí  que além das obras de Pedro da Félix Machado e Joaquim  Dias  Cordeiro  da  Matta,  publicam-se,  nos  anos  10  e  20,  importantes narrativas, algumas das quais de cunho autobiográfico,como é História de Uma Traição de Pedro da Paixão Franco.

Até  à  década  de  30,  só  O  Segredo  da  Morta,  romance  de  António  de  Assis   Júnior,   dava   sinais   de uma  verdadeira ficção  literária autónoma  e moderna, devendo ser considerado romance – fundador. Antes da sua publicação em livro, foi sendo revelado ao público sob a forma de folhetim no jornal A Vanguarda. Só em  1934  viria  a  ser  editado. António  de  Assis  Júnior  nasceu  em Luanda, no dia  13 de Março de 1887 e faleceu em Lisboa no dia 27 de Maio de 1960.

Com  a década  de 40  consagra-se  um outro cultor da narrativa. Estamos a referir-nos a Óscar Ribas cujos méritos  são  confirmados com a publicação do seu romance Uanga em 1950, mas definitivamente, quando dá à estampa Ecos da Minha Terra em 1952. No dizer do ensaísta  Mário António,  Óscar Ribas “surge como um  elo  necessário entre  essa  tradição  em  perigo e os anseios de afirmação literária das gerações mais novas da sua terra.”

Em  1947,  na  ressaca  do  terrível  período  de  repressão  exercido  sobre  a  imprensa  e  o associativismo autóctones,  durante  o  regime  de  Norton  de Matos, destaca-se no meio jornalístico e literário luandense o nome  de  Domingos  Van-Dúnem que  se estreia  no Diário de Luanda com o conto A Praga. Nesta geração não se contam muitos praticantes da ficção narrativa. A primazia é dada à poesia. É uma geração de poetas que se notabiliza e em que avultam os grandes da poética fundadora angolana.

Os  narradores  reaparecem nas  décadas de 50  e 60 com os nomes  de Luandino Vieira, Arnaldo Santos e Manuel  Santos  Lima. Ainda neste período revelam-se outros nomes como Henrique Abranches, Uanhenga Xitu,  Pepetela  e  Manuel  Rui.  Esta  geração  caracteriza-se  pela  sua  atitude  ética.  O seu comportamento colectivo sedimenta-se de um modo geral no compromisso político com a causa do nacionalismo. Por essa razão,  verifica-se  que  uma boa  parte dos seus intregrantes vivem profundas experiências associadas a tal compromisso.    Suportam    condenações    de    pesadas    penas    de    reclusão    em    severos   regimes concentracionários. São os casos, por exemplo, de Luandino Vieira e Uanhenga Xitu.Outros engajam-se em militâncias  directas no  Movimento de  Libertação Nacional  ou indirectas  através de  actividades cívicas em grupos de intelectuais de esquerda na Europa.

No  livro  A  Geração  da  Utopia,  Pepetela  traça  uma espécie de biografia da sua geração, com incidências sobre  aquilo  que  eram  os  ideias e  o actual  desencanto que o comportamento colectivo dessa geração e seus representantes infundem, após o período pós-independência, particularmente com a instauração da II República e do pluralismo político.

A  geração  de  70  é  um  prolongamento  natural  da anterior,  já que  não ocorrem importantes soluções de continuidade.  É  que  observa-se ainda entre alguns dos seus membros a supermacia de uma atitude ética relativamente aos imperativos de ordem estética e literária da sua época. Esta geração representa o espírito da época de transição para o período pós-colonial.

Apesar  das  experiências  de  heróis  e mártires, igualmente  vividas  pelas  duas  gerações  imediatamente anteriores,  não  me parece  que elas  e a  sua escrita se tenham constituído em modelo de superação para a   geração   de   80.   Há   uma   descontinuidade  obervável  na  escrita  de  ficção  e  nos padrões estéticos, provocada  pela exacerbação de temas literários marcados, de certo modo, por uma ideologia política oficial e  sua introdução nos manuais  escolares. Mas tal constatação só faz sentido se a associarmos ao facto de, à  data  da independência,  os liceus  e os três centros universitários de todo o país serem frequentados por um número de jovens angolanos, até aí nunca visto. Para um país que saía das malhas de um colonialismo atroz,  essa  população  estudantil  não  deixava  de  representar  uma justificada expectativa. É que a política educacional  portuguesa  para  Angola  colonial  sofrera  um  profundo  abalo a partir de 1960. A filosofia que subjaz a tais modificações da política colonial assentava ainda no assimilacionismo. Em  1970, Pinheiro  da Silva,  o secretário  provincial da  educação  de  Angola,  falava da “ integração dos portugueses africanos no modo de vida moral, espiritual e material dos portugueses europeus”.

Segundo as estatísticas da época, de uma taxa de matrícula inferior a Moçambique no início das reformas, a população  escolar  angolana  do  ensino  liceal,  por  exemplo,  passaria  a  10.779, um número superior ao de Moçambique, que era de 10.524. No ensino universitário, o efectivo  angolano, com 1.557  era igualmente superior ao de Moçambique, registando 1.145.

Realizada   a   ruptura   no   plano   dos   fundamentos   do   próprio   Estado,   nos   anos    subsequentes    à independência,  lançavam-se  bases  para  as  necessárias  reformas  das  políticas  educativas  e culturais. Esperava-se  que,  num  contexto   pós-colonial,   estas   viessesm  a   produzir   efeitos   multiplicadores   da angolanidade  literária.  Todavia,  os  “produtos”  desse sistema  pós-colonial representavam, pelo contrário, amostras  de  um  processo  de  descontinuidade  que se observava relativamente à geração de 70. Estou a referir-me  à  geração  literária  de  80 – a  geração  das  incertezas -  que  realiza  a  sua  formação  biológica e  sociológica  em  circunstâncias  de  elevadas  incertezas  do  ponto  de  vista   ontológico,   além   de   viver experiências  catastróficas e graves como a guerra. Mesmo assim ela afirma-se logo no princípio da década de  80,  através  de  manifestações  associativas  e  participações  em  concursos  literários.  É  a  vaga   das Brigadas  Jovens  de  Literatura.  As  primeiras  formam-se nos principais centros urbanos, nomeadamente, Luanda,  Lubango  e Huambo,  igualmente cidades em que se encontram implantados o ensino médio, pré-universitário  e universitário aos  quais se juntam os  seminários  e  outros  estabelecimentos eclesiásticos.

Para a ficção  narrativa,  a  geração  de 80 traz  vários nomes em  que se incluem aqueles  que emergem  na diáspora.  A produção global  desta geração comporta  cerca de cinquenta  títulos.  Do  interior  destacam-se entre  outros,  Cikakata  Mbalundu, um dos fundadores da Brigada da Huíla;  Mota  Yekenha, um dos poucos clérigos  da geração que  se dedicam ao romance, trazendo inovações no capítulo da linguagem, ao lado de Jacinto  de  Lemos;  João  Melo cujo   livro   de   contos  introduz   um  novo   segmento  temático,  ao  dar  um tratamento  privilegiado  ao  tema  do  amor  e  do  erotismo.  O mesmo acontece com Rosária Silva, um dos poucos  nomes femininos que se  revelam neste género em  prosa.  Da  diáspora  são dignos de referência Sousa Jamba e José Eduardo Agualusa.

Quais são então alguns dos ficcionistas mais representativos da geração de 80?

Cikakata Mbalundu
É   natural   do   Mungo,   província   do   Huambo   onde   nasceu   em   1955.   Fez   os   estudos   na   capital da  província. Fixou-se na cidade  do Lubango em fins da  década de  70. Aí iniciou os estudos universitários em  filologia germânica,  vindo a licenciar-se  em psicologia pelo ISCED, designação dada posteriormente a antiga  Faculdade de  Letras, no  âmbito  da reforma  do  ensino superior.  Reside  actualmente em Portugal onde prepara a sua tese de doutoramento na Universidade do Minho. Publicou dois  romances: Cipembúwa (1986)  e O Feitiço de Rama  de Abóbora (1996).  Com  ambas  as  obras  o  autor participou no concurso do Prémio  Sonangol de Literatura, tendo a primeira  sido  distinguida  com  uma menção honrosa e a segunda mereceu o troféu do ano de 1991.

Jacinto de Lemos
Nasceu  em  Icolo -  e  - Bengo  a  2 de Janeiro de 1961. É técnico médio de bioquímica. Publicou Undengue (1989)  que  foi  menção  honrosa  do  Concurso  Sonangol  de  Literatura  em 1986 e O Pano Preto da Velha Mabunda ( 1997).

João Melo
É  natural  de  Luanda,  onde  nasceu  em  1955.  Fez  estudos  de  Direito  em   Coimbra.   Licenciou-se   em comunicação  social  pela Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro, tendo obtido o mestrado em comunicação  e  cultura. Foi Secretário Geral da União dos Escritores Angolanos. Actualmente é deputado à Assembleia Nacional. Publicou  uma única obra de ficção narrativa, Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir (1998).

José Eduardo Agualusa
Nasceu  em  Dezembro  de  1960,  na  cidade  do  Huambo.  Reside  em  Lisboa.  É  jornalista  do  Público e da  RDP-África.  Publicou  A  Conjura (1989) que mereceu o Prémio Sonangol de Literatura, D. Nicolau Água-Rosada  e  Outras Estórias Verdadeiras e Inverosímeis (1990),  A  Feira  dos  Assombrados (1992), Estação das Chuvas (1996), Nação Crioula (1997).

Mota Yekenha
Nasceu no Cipeio, província  do Huambo, em Fevereiro de  1962.  Aí viveu a infância e juventude. Frequentou a   escola  primária   na   missão   católica   local.   Formou-se  em  filosofia  e  teologia  no  Seminário  Maior do   Huambo.   Tem   um   romance   publicado   em   1992,   sob   o   título   Kambonha,    com    a    chancela da  Europress.

Roderick Nehone
Nasceu  em  Luanda  a  26  de  Março  de  1965.  Fez  os   estudos  secundários  e  universitários  em  Cuba. Licenciou-se em Direito pela  Universidade Central de Las Villas. É um dos autores que mais recentemente se revelaram no plano da ficção narrativa. Publicou Estórias Dispersas de um Reino (1996) e O Ano  do Cão (1998). Ambas as obras foram agraciadas com o Prémio Sonangol de Literatura.

Rosária Silva
É  natural  do  Kwanza  Norte,  onde  nasceu  em  4  de  Abril  de  1959.  Aí  realizou  os  estudos   primários e secundários.   É   formada em Ciências da   Educação, na especialidade de   linguística   portuguesa,   pelo Instituto   Superior   da   Universidade Agostinho Neto. Publicou Totonya (1998),uma narrativa   que mereceu menção honrosa do Prémio Literário António Jacinto.

Sousa Jamba
Nasceu   na   vila   do   Dondi,   província   do   Huambo,   em 1966. Passou a infância na capital da província. Em 1976 emigra para a Zâmbia, em consequência da guerra. Fez os estudos em língua inglesa, e   com ela se   iniciou   na   actividade   literária.   Em  1986   foi  para   Londres com o objectivo de estudar   jornalismo. Trabalhou para o jornal The Spectator onde lhe foi atribuído o prémio Shiva Naipul. Reside   actualmente em Londres.

Publicou dois romances: Patriotas (1991) e Confissão Tropical.

Nas   obras   dos   autores que constituem o elenco dos mais representativos da geração de 80, observa-se a   predominância de quatro temas principais:   a guerra   e seu impacto na psicologia colectiva pós-colonial ( Cipembúwa, Patriotas);   o   sagrado   na vida quotidiana (O Feitiço   de Rama de Abóbora, O Pano Preto da Velha   Mabunda, Totonya); o amor e o erotismo ( Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir, Totonya); a ironia sobre degradação social e a precariedade da existência humana ( Kambonha, O Ano do Cão).

No   plano da estética narrativa, verifica-se   uma diversidade de recursos, destacando-se   a linguagem, em que   se notam ocorrências e   situações de diglossia imprópria, os diálogos, a construção de personagens, sua tipologia e tratamento. Tais aspectos evidenciam já sinais de uma ruptura, relativamente à ficção das décadas de 60 e 70, apesar de os seus indícios não serem ainda muito abundantes.


A NOVA GERAÇÃO DE POETAS ANGOLANOS

Embora a literatura angolana deva ser analisada em três grandes vertentes, nomeadamente a literatura oral, a literatura escrita el línguas nacionais e a escrita   em língua portguesa, limitarei o campo desta perquirição
à   poesia el língua portuguesa escrita por poetas da Geração das   Incertezas, ou seja, a Geração de 80. Ne periodologia literária angolana do século XX, registam-se quatro gerações de poetas:
a) Geração de 40 (Geração da Mensagem)
b) Geração de 50 (Geração da Cultura)
c) Geração de 70 (Geração do Silêncio)
d) Geração de 80 (Geração das Incertezas)

As três primeiras gerações, ao contrário da última, emergem no contexto da situação colonial. O período que tem   início com   a   independência traduz, por si só, uma ruptura, podendo denominar-se como período pós-independência.

Do   ponto   de   vista   literário,   tal   período   há-de   ter   na   Geração   de   80 os expoentes das respectivas manifestações literárias.

Vou,   portanto, falar-vos  desta   geração.   Por isso, convido   o   leitor   a acompanhar-me.   Acabaremos por empreender   um esforço de   selecção e depuração, incidindo   sobre   alguns autores   e   sua   obra.   Eles são cerca de três dezenas e publicaram aproximadamente cinquenta livros.

Ao   falar dos autores, interessa   referir as   suas idades ou datas de nascimento, por constituirem um grupo reunindo   um determinado   tipo   de   características.   A   proximidade   etária   tem grande importância para compreender as suas atitudes e tendências estáticas e criativas. Grande parte destes autores nasceram no período   compreendido   entre   1955   e   1966,   durante   o   qual   ocorreram   factos de relevância histórica e sociológica. É o período   das independências políticas em África e da continuação das resistências contra o colonialismo, através da luta armada, como são os casos de Angola, Guiné-Bissau, Moçambique.

Nas décadas de 50 e 60, Angola sob o   domínio colonialfoi sacudida por uma   forte onda   de rebeliões que assinalam   o   início   da guerra   de   guerrilha,   ou   guerra   colonial,   como   também   lhe chamam. Como consequência disso, o poder colonial empreende accções de reforma ao sistema, desde a legislação sobre o   chamado   trabalho indígena,   numa   tentativa   de suprimir   a prática da discriminação racial, passando pela   instauração de um   sistema de ensino   que se pretendia   multiracial, indo até à criação dos Estudos Gerais Universitários e à ocorrência de fenómenos de mobilidade e anscensão social de uma certa camada de   negros com   a sua   integração no   funcionalismo público   e em outros empregos que conferiam maior status social e económico. Nesse contexto destaca-se a  pedagogia da língua e da  literatura portuguesa, de outras  línguas  e literaturas. Uma boa parte  dos  membros da geração de que estamos a falar frequenta os Liceus  e a  Universidade, cujos  currículos obedecem  aos cânones literários ocidentais. Por circunstâncias várias,  alguns  deles  cedo tomaram  contacto com  textos de  autores  angolanos  e tendências literárias de pendor autonomista.

Com a  independência política de  Angola, em Novembro  de  1975,  é  fundada  neste  mesmo  ano a União dos Escritores  Angolanos cuja proclamação é feita  sob  os auspícios da «vinculação da criação literária ao processo  revolucionário». Este compromisso  com o «processo revolucionário»  dá lugar a uma orientação ideológica das manifestações literárias e, por conseguinte, à censura de livros e publicações a introduzir no mercado. De  tal modo que o mercado do livro  passou a ser dominado, durante muito tempo, pela literatura dos países socialistas, tendo sido banida a literatura e autores de países capitalistas.

É  nesse  ambiente  que  ocorre  a  socialização  da  Geração  de  80.  Do  ponto de  vista biológico alcança a maturidade  nos fins da  década de 70  e consolida-se na década de 80 com a publicação de livros a que se junta  uma intensa  e eufórica  actividade associativa  de jovens nos principais centros urbanos de Angola. A expressão  desse movimento associativo está  nas  Brigadas  Jovens  de  Literatura,  que  tendo  a  primeira sido proclamada em Luanda seguiram outras em várias capitais de província e algumas cidades, tais como Lubango, Huambo, Lobito, Uige, Namibe.

Lendo  a obra  dos  poetas  da  Geração  de  80  e  tendo  em  conta  a sua atitude perante a poesia, observo quatro categorias de autores:

- Os epígonos que, além de não trazerem qualquer contribuição à literatura angolana, falham pela ineficácia criativa e estética;
- Os intermitentes ou  inconstantes,  que  pendem  entre  o  discurso  da  poesia e o resto que não é poesia, preocupados com as situações efémeras, nomeadamente as da consagração;
- Aqueles que, apesar de uma dicção individual visível e alguns indícios de inovação ao nível formal, todavia, não realizam qualquer ruptura no plano dos referentes;
- Os inovadores, que procuram na experiência individual os dramas do viver colectivo, recorrendo à novidade do vocabulário e estratagemas de articulação poética.

As duas últimas  categorias  constituem  os  grupos  dos  dignos  representantes dessa geração de poetas, embora  tal  constatação  não signifique um reconhecimento eterno e definitivo da sua qualidade. A primeira destas  duas  categorias  tem  os seus expoentes  em Lopito Feijóo com o  seu opúsculo  Doutrina;  Ana  de Santana  com  Sabores,  Odores  e  Sonhos;  Lisa  Castel  com  Mukanda;  José  Luís  Mendonça  com  Gíria de  Cacimbo;  João Melo  com  tanto Amor e O Caçador de Nuvens; António Panguila com o Vento do Parto e Conceição  Cristóvão  com  Amores  Elípticos;   Maria  Alexandra  Dáskalos com Delícias. Quanto à segunda categoria  destacam-se  João  Maimona sp;com  As  Abelhas  do Dia e Traço de União; José Luis Mendonça com  Respirar as Mãos na Pedra, Logarintimos da Alma, Quero Acordar a Alva; Rui Augusto com a Lenda do Chá,  Amor Civil e  Colar de Maldições; e  Frederico   Ningi com Os Címbalos dos Mudos. Quem são eles do ponto de vista da sociologia literária?


ANTÓNIO PANGUILA

António Panguila, nasceu a 15 de Julho de 1963. É formado em  História  pelo Instituto Superior de Ciências da  Educação. Foi  durante  algum  tempo  professor  do  ensino  secundário.  Presentemente  é  funcionário bancário.  Na década de 80 pertenceu  ao  grupo  literário OHANDANJI, além de ter sido membro da Brigada Jovem de Literatura de Luanda.

É um poeta que exibe o domínio de alguns recursos peculiares, destacando-se a recorrência da repetição e da aliteração. Os seus textos trazem a marca característica da brevidade e são de um modo geral curtos, do ponto de vista estrutural.

Em 1996, arrebatou o Pémio Literário Cidade de Luanda, com o livro Amor Mendigo.

É membro da União dos Ecritores Angolanos.

Publicou:
· O Vento do Parto (poesia, 1994)
· Amor Mendigo (poesia,1996)


FREDERICO NINGI

Frederico Ningi nasceu em Benguela a 17 de Fevereiro de 1959.Fez os estudos primários e secundários na cidade  natal  e  em  Luanda realizou  estudos de jornalismo.Presentemente é assistente de comunicação e imagem  da  Sonangol   Aeronáutica.  Filho  de   pais  tocoístas,  sobre  os  quais  se  abateu  a  restrição  de liberdade  religiosa  na  década  de  60,  cedo  começou  a ler Bíblia nas versões em Umbundu e Português, tendo-se tornado na adolescência leitor assíduo da literaturta espiritual oriental e praticante de yoga.

Enquanto  poeta  integra  uma  das  quatro  tendências  em  que  podemos  analisar a poesia da geração de 80.  Faz  parte  daquele grupo de poetas iconoclastas, que além de perturbarem a estrutura morfológica das letras  e palavras  com o jogo de  maiúsculas, a presença de termos em línguas nacionais, introduzem uma ordem  visual  nos  seus textos,produzindo um  resultado   surpreendente   na   combinação   de    fotografia, grafismo monocromático e gravuras de tratamento informático.

Dedica-se  igualmente  à  fotografia  cuja  actividade  desenvolve  de  modo  quase  profissional.  É  membro da União dos Escritores Angolanos e da União dos Artistas Plásticos.

Publicou:
· Os Címbalos dos Mudos (1994)
· Infindos na Ondas (1998)


JOSÉ LUÍS MENDONÇA

José  Luís  Mendonça  nasceu a 24 de Novembro  de  1955,  no  Golungo  Alto,  província  do  Kwanza  Norte. Jornalista  e poeta, é funcionário do  UNICEF  Angola, onde exerce actualmente as funções de assistente de informação.

Podendo ser considerado o mais vigoroso produtor  de  rupturas no plano formal naquilo que é a novíssima poesia  angolana,  preenche igualmente os requisitos para ser um dos mais inovadores poetas da Geração de  80,  a  chamada  Geração  das  Incertezas.  Inscreve-se  numa  das  quatro tendências em que podemos analisar  a  poética  dessa  geração,  caracterizando-se  particularmente  pelo  rigor  e   intencionalidade   na construção  de  metáforas  e  pela  associação  de  sentidos,  quando  é  confrontado   com  a   necessidade de propor uma verdadeira linguagem poética.

Escreve para  diversos  órgãos  de imprensa angolanos e tem participado em vários festivais internacionais de  poesia.  Figura  em  antologias  de  poesia  angolana  publicadas  no  Brasil  e  Portugal.  É  membro  da União dos Escritores, desde de 1984.

Publicou seis livros de poesia:
· Chuva Novembrina (1981, Prémio de poesia Sagrada Esperança, INALD,1981);
· Gíria de Cacimbo ( Prémio Sonangol de Literatura, União dos Escritores Angolanos, 1986);
· Respirar as Mãos na Pedra ( Prémio Sonangol de Literatura, União dos Escritores Angolanos,1986);
· Quero Acordar a Alva (Prémio de Poesia Sagrada Esperança,ex-aequo, INALD,1996);
· Logaríntimos da Alma- Poemas de Amar, (União dos Escritores Angolanos,1998);
· Ngoma do Negro Metal (Edições Chá de Caxinde, 2000)


JOÃO MAIMONA

Nasceu  a  8  de Outubro  de 1955,  em  Kibocolo,  Maquela do Zombo. Estudou humanidades científicas em Leopoldeville.  Em  1978,  fixou  residência  na  província   do   Huambo,   onde  se   licenciou   em   medicina veterinária.  É  diplomado  em  Estudos  Superiores  Especializados  de  Virologia  Médica  e   Epidemiologia Animal,  pelo  Instituto  Pasteur  de  Paris  e  pela  Ecole  Nationale  Veterinaire  d'Alfort,  França.  É quadro do Ministério  de Agricultura e do  Desenvolvimento  Rural  e  desempenhou as funções de Director Nacional do Instituto  de  Investigação Veterinária  (I.I.V.),  de  1991 a 1993. É assistente da Universidade Agostinho Neto. Foi  membro  fundador  da  Brigada  Jovem  de  Literatura  do  Huambo.  É  membro da União dos Escritores Angolanos. Em 1984,  arrebatou  o  prémio Sagrada Esperança com o livro de poesia Trajectória Obliterada. Em  1987,  foi  distinguido  com  a  medalha de bronze no concurso internacional de poesia, organizado pela Academia  Brasileira  de Letras,  na  cidade  do  Rio de  Janeiro.  Tem  colaboração  dispersa pela imprensa angolana  e  estrangeira.  Figura  na  Antologia  No  Caminho  Doloroso  das  Coisas  (1988).  É  deputado  à Assembleia Nacional.

Publicou:
· Trajectória Obliterada (poesia, 1985);
· Les Rose Perdues de Cunene (poesia, 1985);
· Traço de União (poesia, 1987, 1990);
· Diálogo com a Peripécia (teatro, 1987);
· As Abelhas do Dia (poesia, 1988, 1990);
· Quando se ouvir o sino das sementes (poesia, 1993);
· Idade das Palavras (poesia, 1997);
· No Útero da Noite (poesia, 2001);
· Festa de Monarquia (poesia, 2001).


JOÃO MELO

João  Melo  é  jornalista,  escritor,  publicitário.  Nasceu em Luanda, em 1955. Estudou Direito em Coimbra e em  Luanda.  Licenciou-se em  Comunicação Social  e fez  o mestrado  em Comunicação no Rio de Janeiro. Dirigiu  vários  meios  de  comunicação  angolanos,  estatais  e  privados.  Foi secretário-geral da União dos Escritores  Angolanos. Actualmente, além de presidente da Comissão Directiva da UEA, dirige uma agência de comunicação privada e é deputado à Assembleia Nacional.
Publicou:
· Definição (poesia, 1985);
· Fabulema (poesia,1986);
· Poemas Angolanos (poesia, 1989);
· Tanto Amor (poesia,1989);
· Canção do Nosso Tempo (poesia, 1991);
· O Caçador de Nuvens (poesia, 1993);
· Limites & Redundâncias (poesia, 1997);
· Imitação de Sartre & Simone de Beauvoir ( contos,1998);
· Jornalismo e Política(ensaio,1991).


FERNANDO KAFUKENO

Fernando  Kafukeno nasceu  em Luanda  aos 18  de Novembro  de  1962,  onde  fez  os  estudos  primários, secundários e pré-universitários. Foi membro da  Brigada Jovem de Literatura de Luanda. Em 1987 integrou o  elenco  directivo da Brigada Jovem de  Literatura  de Angola. Organizou tertúlias literárias que cujo cenário era  a  cervejaria Biker,  na baixa  de Luanda.  Os  seus  primeiros poemas foram publicados no suplemento cultural  do  Jornal  de  Angola.  Na fase inicial da sp;sua carreira, demonstrou sempre uma avidez de leitura e  convívio  pessoal  com  outros  poetas.  Assim  se  explica  a  amizade  que  na  década  de  80 travou com o malogrado David Mestre.

Estamos,  pois,  diante de um poeta que, ao lado de outros  mais ousados da sua geração, e pugnando por uma certa discrição mediática, apresenta um elevado nível de elaboração no fazer da poesia, recorrendo ao experimentalismo  poético,  a  um  selectivo  acervo  vocabular  brandamente   marcado   pela  topografia  de Luanda  e à construção do texto curto e  denso. É uma revelação de vulto na poesia angolana da geração de 80, a chamada geração das incertezas.

É  membro  da  União  dos  Escritores  Angolanos.  Arrebatou  o Prémio de Literatura Cidade e Luanda 1999 com o livro Missangas !Kituta

Publicou:
· Boneca do Bê-Ó (1983);
· Na Máscara do Litoral ( 1997);
· Sobre o Grafite da Cera (2000);
· Missangas Kituta (2000).


LOPITO FEIJÓO

J.A.S. Lopito  Feijoó  nasceu no  Lombe, província  de  Malanje a 29 de Setembro de 1963. Passou a infância em  Maquela  do  Zombo  e  adolescência  em  Luanda,  no  bairrro  do  Cazenga.  Fez os estudos primários, secundários  e  pré-unviversitários  em  Luanda.  Na  década  de  80  foi  co-fundador  da  Brigada  Jovem de Literatura de Luanda e realizou estudos de Direito na respectiva Faculdade da Universidade Agostinho Neto. Fez  parte  do  elenco  de  direcção  da  Brigada  Jovem  de  Literatura  até  1984,  data  em  que, &nb sp;com outros membros que pugnavam pela ruptura dos cânones do cantalutismo e pela busca de novas formas estéticas e semânticas para a Literatura Angolana, se constituíu o Grupo  Literário  OHANDANJI. Destaca-se na  sua  geração  pela  sua  actividade  de  editor  de  publicações  informais  e  plaquettes,  além de boémio alimentador  de  polémicas,  é activo frequentador de tertúlias, praticante da crítica e do ensaio nos anos 80. Mas  é  sobretudo  com o  texto  poético  que  se firmou no panorama da poesia angolana, caracterzando-se, para além do experimentalismo, por uma certa iconolastia e erotização do vocabulário da poesia.

Em 1985,  é-lhe  atribuída  menção  especial  no  Concurso  literário  do INALD  pelo  livro  Entre  o  Ecran e o Esperma.
É membro da União dos Escritores Angolanos.

Publicou:
·Doutrina (poesia, UEA, 1987);
· Me Ditando;
· Rosa Cor de Rosa;
· Corpo-a-Corpo (plaquettes de poesia, 1987);
· No Caminho Doloroso das Coisas;
· Antologia de Jovens Poetas Angolanos (UEA 1988);
· Cartas de Amor (UEA, poesia, 1990);
· Meditando (ensaio e crítica, 1994)


RUI AUGUSTO

Jo Rui Augusto nasceu a  26 de Julho  de 1958, na  região de  Camabatela.  Fez  parte daqueles grupos  de  jovens  que  na  efervescência  eufórica  da  independência  integraram  as forças armadas.  Fez estudos universitários de Economia na Universidade Agostinho Neto. Na década de 80, exerceu actividades ligadas  a  edição  de  publicações, tendo sido revisor no Jornal de Angola, membro do conselho editorial do semanário  cultural  Angolê-Artes  e  Letras  e  da  revista  Mensagem. Desde 1992, tem vindo a dedicar-se à actividade política, sendo deputado à Assembleia Nacional.

Além  de  ensaísta  de  boa  prosa sem livro publicado, com  provas  dadas  nas  colunas da imprensa, é, no entanto,  um  dos  mais importantes poetas da Geração Literária  de  80,  encabeçando  aquela  corrente  ou tendência   que   se   caracteriza   pelo   tratamento   de  temas   associados   à   dimensão ontológica,  mais concretamente a perda do sentido da existência humana.

Publicou:
· A Lenda do Chá (poesia, 1987);
· O Amor Civil (poesia, 1991);
· Colar de Maldições (poesia, 1994).

É membro da União dos Escritores Angolanos.


JOÃO TALA

João Tala nasceu em Malanje  a 19  de Dezembro  de 1959.  É médico  exercendo a  profissão como interno em  alguns  hospitais  de  Luanda.  Iniciou  a  sua  actividade  literária  na  cidade do Huambo, onde cumpria o  serviço  militar  e  foi  co-fundador  da  Brigada  Jovem  de  Literatura.  Apesar  de  ter  frequentado  círculos literários   daquela  cidade,  de  que despontaram  ainda na década de 80 importantes nomes da novíssima poesia   angolana como  João  Maimona, o  seu  primeiro  livro  de  poesia  sai  a   público apenas em 1997. Arrebatou  o prémio Primeiro  Livro da União  dos  Escritores em  1997 e o promeiro lugar dos Jogos Florais do Caxinde em 1999.

Parecendo  justificar  o  respeito  que  nutre  pela  poesia,  o  seu  livro  de  estreia é, apesar dos cerca de 15 poemas,  uma  auspiciosa contribuição  para a  renovação  e  diversidade   do   discurso   poético  angolano. O  segundo  livro  voltou  a  merecer  um  acolhimento  encomiástico  da parte de José Luís Mendonça, outro expoente  da  sua  geração,  que  o  considera  como  uma  vocação  poética  a   irromper   no   universo  das letras  angolanas  com  soberania  inerente  aos grandes criadores.

Publicou:
· A Forma dos Desejos (poesia, 1997);
· O Gasto da Semente (poesia, 2000)

É membro da União dos Escritores Angolanos






















































































































































































































































































































































































































































































































































































































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